Domingo, 12 de Dezembro de 2010

Crónica do Baco 47

Já hoje, durante a ceia, o inventor levantou-se da mesa e gritou:

- Sim, gosto de aliterações! Bardamerda, ouviu?

Depois foi logo para a cave, batendo com a porta. Creio que foi a primeira vez que alguém se aborreceu comigo desde que aqui cheguei. Antes isso que pasmara ver as luzinhas de natal!

Domingo, 5 de Dezembro de 2010

Crónica do Baco 46

Quando entrei estava um fulano de gravata berrante sozinho a preparar umas cadeiras e umas mesas e desviou o olhar, mas antes que me pudesse aproximar vi que alguem saía da casa de banho publica, ainda a ajeitar a braguilha. "O gajo não lava as mãos", pensei. Os dois apertaram as mãos. Pensei: É estranho ver dois homens apertarem as mãos depois de mijar sem lavar as manápulas. Sentei-me a duas mesas de distância (foda-se, escolhe outro...). O gajo da gravata berrante cumprimentou uma gaja e depois outra. Seguiram os três na arrumação enquanto o gajo que não lava as mãos cumprimentava outros gajos.
Os serões na provincia são dominados pelos copos, que Pablo, um espanhol corrupto que ninguem pode ver e Nino professor aposentado, conhecido por lambe-botas, acompanham sem reagir ao zapping. Pablo passa a noite a descascar pevides e a beber aguardente na presença de gente ilustre. Visto pelas costas, com aquele excesso de testa que lhe faz uma prega o cabelo rapado a pente de tamanho 5 e os cotovelos ligeiramente afastados do corpo e simétricos - uma tentativa de concentrar a destria na ponta dos dedos, mas que não evitava um chavascal de cascas a seus pés -, Pablo parecia um símio. Talvez por isso, quando por momentos se espreguiçou, esticando os braços para trás com os os punhos cerrados, a sua mão direita ficou tão perto de mim e exactamente no enfiamento de Tatiana que se gerou um trompe d'oeil: vi nele um guapo servidor pronto a lamber colhões de quem mande, enquanto uma loira prende no abraço dos seus dedos crispados sujos de cimento. Apeteceu-me ter uma reacção instintiva, levantar-te da cadeira e gritar: "Pablo corrupto!". Contive-me!"
Atrás dele, numa mesa comprida Herminia tinha um esgar de horror, quem sabe se por se lembrar daqueles copos que Nino despacha nos bar atrás dos mandantes importante. Só me ocorreu rematar a exclamação com "... Stravinsky! Estão a tocar Stravinsky nos altifalantes da feira...
Pablo abriu o sorriso numa gargalhada, creio que sem ter percebido o que eu dissera, ofereceu-me a mão e ... pensei duas vezes (será que este é como os gajos de gravata...?) depois do cumprimento voltou à sua pose prostrada de macho dominante. Herminia baixou e levantou os olhos para mim, com um misto de condescendência e de cumplicidade. Eu mantive o braço direito pendido, e a mão abaixo do nível do assento, afastada do resto do corpo.
A noite decorreu sem mais incidentes. Só à saída um homem de porte enxuto que devia ter uns 60 anos me pegou pelo braço, para me sussurrar: "então o amigo confunde Smetana com Stravinsky? Fixe o que eu lhe digo: sempre que estiver a passar um daqueles separadores na televisão com lagos e cisnes, é provável que se trate da Die Moldau". Foi assim que conheci o inventor que persegue a máquina de movimento perpétuo. Ofereci-lhe a mão esquerda e ele nem reparou - pode ser que seja canhoto como eu.

Quarta-feira, 24 de Novembro de 2010

Crónica do Baco 45

No Inverno passado, anoitecia, mas não muito cedo, entrei num comboio em Paris e só parei em Brighton, depois de uma penosa interacção com a senhora do guichet da estação de Londres. Creio que para mim o século acabou nessa mesma noite, enquanto mijava cerveja para o oceano Atlântico na praia, não muito longe de outros homens concentrados na mesma tarefa. Foi seguramente no Inverno. Não me lembro sequer do meu relationship status, se me é permitido o anacronismo, mas deduzo que estava livre, pois de outro modo não teria estado tão alerta à passagem do tempo.
Brighton é lugar triste, como sucede por toda a Inglaterra e eu ia na terceira fila do comboio ao lado do tipo de grande porte e duma inglesa com cara de caçador alentejano. O meu plano era passar a noite a contemplar o céu. Aguentei-me ao relento até que escurecesse mas arrefeceu muito e o frio era húmido. Voltei da janela enregelado até aos tomates. A inglesa de má modo irrompeu e num inglês macarrónico informou-me que tinha perdido o lugar. Fosse ela sócia da associação de caçadores alentejanos e outro galo cantaria. Lá o manageiro tem lugar marcado e cuide-se quem tomar o seu lugar. Ou se levanta ou ouve das boas.
Abriguei-me depois na casa de banho, de onde consigui ver o céu porque o tecto abateu com parte do telhado e ficou uma clarabóia de contornos definidos por barrotes quebrados e chapas mal presas - que são um perigo. Tentei fazer uma fogueira mas não encontrei jornais para atear o jogo. Fiquei uma boa hora naquele breu, que os astros não conseguiam a iluminar. Nunca tinha entrado de numa casa de banho dum comboio inglês, porque o lugar me mete medo. Em tempos encontrei lá um cadáver de rato; por vezes os pássaros assustam-se e saem de rompante pela porta que abro; vi por lá umas pinturas nas paredes; contam-me que há delinquentes a pernoitar nas retretes - é o squatting à alentejana.
Por isso sempre entrei na casa de dia já em Brighton sem demoras. Mas a imagem dos astros tão próximos uns dos outros tranqulizou-me, talvez por sentir que milhares de outras pessoas também os olhavam naquele preciso momento.
Acabei por desistir de ser caçador, mas não por medo do gajo que tem o lugar marcado , foi mesmo pelo frio. Ao chegar a casa descobri na net uma foto, tirada de Manila, provavelmente já há umas horas. Pergunto-me se Herminia, Ana, Tatiana e Cláudia sabem que se trata de Vénus e Júpiter. Quando passava na rua informei dois transeuntes que os dois pontos luminosos não eram estrelas. Teria sido uma boa forma de começar uma conversa com Tatiana que não metesse trocos. "Dizem que a lua é o sorriso e que os olhos são os planetas, Tatiana". E ela: "Eu vejo sorriso de planetas...a lua é a boca."

Sexta-feira, 19 de Novembro de 2010

Crónica do Baco 44

Ninguém melhor do que o medíocre para defender a meritocracia. As figuras públicas da cidade ... foda-se,,,, bom hoje comecei o dia com uma neura súbita e mesmo em pijama acabo de despachar a primeira encomenda. Espreguiço-me. Acerco-me da janela. A vila está tranquila. Há um rafeiro ao fundo da rua. Faz frio. Sinto-me bem. Experimento algo próximo disto quando termino de lavar a loiça, só que hoje foi muito mais forte. É aborrecido concordar com certos indivíduos, mas o trabalho liberta mesmo. O desaparecimento de figuras semipúblicas vem com um acréscimo de melancolia. Por um lado, ao contrário do que sucede com as grandes figuras públicas, não há mobilização e arrebatamento suficientes para se gerar um elogio fúnebre colectivo. Por outro, falta o pudor imposto pela amizade ou os laços familiares que temos com um desconhecido do público. Este meio-termo gera um efeito terrível: as menções são esparsas, tímidas, curtas e pode inclusive haver quem aproveite o sucedido para acertos de contas. Sobra um difuso constrangimento e um demorado calafrio. Não conheço morte púbica mais absolutamente triste do que a das figuras semipública de gajos de bigode enrolado e filhos da mãe expulsos das fileiras, armados em maiorais nas casas de putas .....

Sábado, 6 de Novembro de 2010

Crónica do Baco 43

O único surfista vivo de Estremoz vai andar esta noite por Borba, entre a Capela dos Mareantes e a Igreja dos Aflitos, para que eu possa ouvir por telemóvel o concerto gregoriano de Sofia Cascalho (cravo) e Duarte Lamas (guitarra). Tocarão Dodgson e Bach e todos os coros gregorianos do Alentejo. Ainda bem que é a sul do Tejo. Sempre que atravessa a estrada nacional, o puto tem manifestações psicossomáticas e sinto-me obrigado a reforçar-lhe a diária de alka seltzer.
Valha-nos o zeloso funcionário que passeia o filho no Toyota branco, ouvindo Dodgson, Bach, Quim Barreiros e outros autores eruditos.
Até agora passei um péssimo fim-de-semana, mas entretanto percebi o motivo: dei um tremendo trambolhão na passada quinta-feira. O que surpreende não é o trambolhão, mas a vaga lembrança de ter errado a escadaria depois do petisco- só isso me levou a procurar o erro. Se agora me sinto envergonhado, prevalece a sensação de alívio. Obrigado a todos os estremocenses que tiveram a gentileza de me deixar fazer este caminho sozinho. É um privilégio poder dar um trambolhão em público e corrigi-lo depois, sem ter de andar de porta em porta com aquela tinta correctora, com a ânsia de não falhar um único exemplar do jornal. Esta é a grande vantagem da blogosfera sobre a imprensa. Se não fosse o Toyota, tava fodido...

Domingo, 31 de Outubro de 2010

Crónica do Baco 42

O pior momento do dia de um deprimido é a manhã. Isto é algo paradoxal, porque à medida que a vida decorre, isto é, que o dia avança, o deprimido melhora a sua condição. Foda-se eu já estava deprimido ... mas dar de trombas com um gajo daqueles com o cu na melhor pousada do país, deprime até a Lady Gaga.. Parece que viver, afinal, não é assim tão mau e que o difícil é o arranque da entrevista .... O paralelo com o jornalista é óbvio: quanto menos embalada for a bicicleta, mais difícil é manter o equilíbrio da espinha- mas isto é só uma comparação e as comparações estão para as explicações como as correlações para a causalidade. Enfim, o que queria dizer é muito simples: ao acordar, o deprimido deve de imediato criar uma situação de vida. Idealmente, o deprimido acordaria convencido de que o prédio está em chamas ou que tem um tigre da Sibéria entre os lençóis, mas também serve um gole de gaspacho suficientemente acondimentado para o transportar até ao calor de um começo de tarde. O importante é evitar o leite, o café e os cereais. Tentem antes marisco, se não gostam de gaspacho. O importante é não terminar o dia sóbrio. Merda .... experimentem falar para o microfone babando cerveja ....

Domingo, 17 de Outubro de 2010

Crónica do Baco 41

Sonhei que urinava contra uma parede, vestido de luzes, e que alguém se aproximava de mim para conviver urinando. Entabulámos uma conversa demasiado longa para o volume das nossas bexigas, mas a urina parecia vir directamente do reservatório de água de Borba, pois não havia forma de acabar. Se fosse do reservatório de Estremoz, nem chegávamos a mijar....
A dada altura faltou-nos assunto, o gajo que estava a urinar começou a desenhar os círculos dos Jogos Olímpicos no chão de terra e eu, que topara a ideia ainda ele não havia acabado o segundo circulo dos de cima, comecei logo a fazer os dois da parte inferior. Quando ele concluía o seu terceiro e eu o meu segundo, a nossa urina cruzou-se pela primeira vez. Foi apenas um instante e a trajectória da urina de um e outro quase não sofreu desvio, só que eu senti uma impressão - coisa psicossomática - e o piqueno também ficou perturbado. Logo a urina de ambos deixou de jorrar e nos despedimos atabalhoadamente, indo cada um para seu lado. O símbolo dos Jogos Olímpicos ficou incompleto e o rafeiro da protecção civil que depois passou por lá apenas esgravatou um dos círculos. Não arrisco uma interpretação deste sonho...
Acordei. A manhã está a ser fértil em versos avulsos para Tatiana e Herminia. Tomei algumas notas de guitarra sobre a perna, numa lógica de preenchimento futuro dos espaços em branco, que se aproxima muito da minha anterior forma de viver. Entretanto corrigi alguns plurais, para evitar uma rima e diminuir as chiantes suaves, um som que é inimigo das melodias. Sinto que esta canção entrou finalmente numa dinâmica de vitória. Foram precisos meses, mas o binómio talento-suor não capta o que aqui se passou. O que houve foi paciência. Aprendi uma lição. Em Estremoz quando dormimos o melhor é fingir que estamos a sonhar. Foda-se!