terça-feira, 28 de setembro de 2010

Crónica do Baco 39

Antes de deixar Lisboa era recorrente dizerem-me que deixava todos os projectos e leituras a meio. Vamos corrigir essa imagem. Enfim, não será uma correcção com efeitos retroactivos, pois já não me dou com essas pessoas. Mas retomemos as leituras que estão indexadas nos planos de viagens que ciclicamente fazia desde a capital até à provincia e vice versa, nos tempos das viagens de camioneta dos Belos que parava em Setúbal, Montemor e aterrava em Estremoz altas horas da matina. Nesse tempo as mulheres tinha palavra e não se vendiam por um prato de lentilhas mas a humanidade é bastante imperfeita, porque as mulheres são menos imperfeitas do que os homens. Os homens tendem a adiar o confronto. As mulheres tendem a recorrer ao telefone para divulgar as más notícias, sejam elas deixar o namorado ou mudar de vida. Este arranque, que parece saído da Cosmopolitan, na verdade assenta numa experiência de vida. Viva Estremoz e o telegrama. Em síntese, era isto. Mas deixo ainda uma nota final de ordem prática. É aconselhável ter sempre o telemóvel com pouca bateria. As conversas longas são invariavelmente conversas que não desejamos ter e interrompê-las por razões de ordem técnica é um luxo. Quem está a ficar desesperado, ou a perder a paciência, ou profundamente triste, ou surpreendido pela sua apatia, ou prestes a explodir, pode esconder o que sente e salvar-se, anunciando: "olha, vou ficar sem bateria". Depois o telefone morre, como que a reforçar uma ordem natural das coisas. Trata-se de um acidente forjado, claro, mas na altura não se dá por isso e daí virá algum conforto.
Por isso Estremoz é uma oficina de diários.O facto das viagens serem inventadas é irrelevante, pois pensei nelas precisamente durante os dias mencionados, e agora limito-me a escrever sobre a lembrança desses pensamentos. E só de pensar nas viagens, fico com os olhos em bico.

sábado, 18 de setembro de 2010

Crónica do Baco 38

Passei a tarde a brincar com uma folha Excel. Como vou continuar em Estremoz até gastar o que herdei em 2008-2009, calculo que as minhas economias dão para viver até Março de 2012. Não contei a inflação, foda-se quem se importa com essa merda isso é coisa de jornalistas merdosos e outros especuladores. Quando ninguém depende de nós, a vida passa a ser um jogo de computador. Não é só a ausência de importância e um desprezo que cria a ilusão de que há sempre uma nova oportunidade. É sobretudo a sensação de viver em permanente experiência extra-corpórea, como se nos observássemos de fora e a nossa essência fosse mais a de quem observa do que a da figura activa, esse boneco que vamos observando. Por definição, o AJG é um desalinhado, que mais poderia chamar a este cretino injusto mesquinho e desonesto? Mas seria injusto não assinalar o regresso dum gajo que consegue ser eremita mesmo quando rodeado de pessoas por todos os lados, coisa que admiramos.
Pffff vou beber mais um whisqy antes que recomece o filme ...

domingo, 5 de setembro de 2010

Crónica do Baco 37

O grande problema do caçador-recolector não é encontrar comida, mas preservá-la. Isto não é uma metáfora para as relações amorosas, faço notar. Não é mesmo. Um homem precisa de comer. Ontem meti-me em trabalhos, matei uma perdiz e vi-me obrigado a assá-la por inteiro, porque não tinha forma de conservar a carne. Não sei secar carne ao sol, nem como a salgar. Ainda pensei em convidar o moço de recados para jantar comigo, mas estaria a violar ainda mais a minha condição. Ele agora tem mais que fazer.. só cheira a criolina ... mesmo de férias ...vai ao estaleiro dar ordens aos seus funcionários.
Estava boa, a perdiz. E aquele lustro da gordura que aflora quando a carne está sob as chamas fez do crepúsculo uma vinheta cheia de sombra e luz. Em que álbum subitamente me reconheci? Talvez num dos do Blueberry. Ah, o Blueberry... o tal que joga ao berlinde e à malha (ah a malha, os estremocenses gostam deste estranho jogo )...