Já hoje, durante a ceia, o inventor levantou-se da mesa e gritou:
- Sim, gosto de aliterações! Bardamerda, ouviu?
Depois foi logo para a cave, batendo com a porta. Creio que foi a primeira vez que alguém se aborreceu comigo desde que aqui cheguei. Antes isso que pasmara ver as luzinhas de natal!
domingo, 12 de dezembro de 2010
domingo, 5 de dezembro de 2010
Crónica do Baco 46
Quando entrei estava um fulano de gravata berrante sozinho a preparar umas cadeiras e umas mesas e desviou o olhar, mas antes que me pudesse aproximar vi que alguem saía da casa de banho publica, ainda a ajeitar a braguilha. "O gajo não lava as mãos", pensei. Os dois apertaram as mãos. Pensei: É estranho ver dois homens apertarem as mãos depois de mijar sem lavar as manápulas. Sentei-me a duas mesas de distância (foda-se, escolhe outro...). O gajo da gravata berrante cumprimentou uma gaja e depois outra. Seguiram os três na arrumação enquanto o gajo que não lava as mãos cumprimentava outros gajos.
Os serões na provincia são dominados pelos copos, que Pablo, um espanhol corrupto que ninguem pode ver e Nino professor aposentado, conhecido por lambe-botas, acompanham sem reagir ao zapping. Pablo passa a noite a descascar pevides e a beber aguardente na presença de gente ilustre. Visto pelas costas, com aquele excesso de testa que lhe faz uma prega o cabelo rapado a pente de tamanho 5 e os cotovelos ligeiramente afastados do corpo e simétricos - uma tentativa de concentrar a destria na ponta dos dedos, mas que não evitava um chavascal de cascas a seus pés -, Pablo parecia um símio. Talvez por isso, quando por momentos se espreguiçou, esticando os braços para trás com os os punhos cerrados, a sua mão direita ficou tão perto de mim e exactamente no enfiamento de Tatiana que se gerou um trompe d'oeil: vi nele um guapo servidor pronto a lamber colhões de quem mande, enquanto uma loira prende no abraço dos seus dedos crispados sujos de cimento. Apeteceu-me ter uma reacção instintiva, levantar-te da cadeira e gritar: "Pablo corrupto!". Contive-me!"
Atrás dele, numa mesa comprida Herminia tinha um esgar de horror, quem sabe se por se lembrar daqueles copos que Nino despacha nos bar atrás dos mandantes importante. Só me ocorreu rematar a exclamação com "... Stravinsky! Estão a tocar Stravinsky nos altifalantes da feira...
Pablo abriu o sorriso numa gargalhada, creio que sem ter percebido o que eu dissera, ofereceu-me a mão e ... pensei duas vezes (será que este é como os gajos de gravata...?) depois do cumprimento voltou à sua pose prostrada de macho dominante. Herminia baixou e levantou os olhos para mim, com um misto de condescendência e de cumplicidade. Eu mantive o braço direito pendido, e a mão abaixo do nível do assento, afastada do resto do corpo.
A noite decorreu sem mais incidentes. Só à saída um homem de porte enxuto que devia ter uns 60 anos me pegou pelo braço, para me sussurrar: "então o amigo confunde Smetana com Stravinsky? Fixe o que eu lhe digo: sempre que estiver a passar um daqueles separadores na televisão com lagos e cisnes, é provável que se trate da Die Moldau". Foi assim que conheci o inventor que persegue a máquina de movimento perpétuo. Ofereci-lhe a mão esquerda e ele nem reparou - pode ser que seja canhoto como eu.
Os serões na provincia são dominados pelos copos, que Pablo, um espanhol corrupto que ninguem pode ver e Nino professor aposentado, conhecido por lambe-botas, acompanham sem reagir ao zapping. Pablo passa a noite a descascar pevides e a beber aguardente na presença de gente ilustre. Visto pelas costas, com aquele excesso de testa que lhe faz uma prega o cabelo rapado a pente de tamanho 5 e os cotovelos ligeiramente afastados do corpo e simétricos - uma tentativa de concentrar a destria na ponta dos dedos, mas que não evitava um chavascal de cascas a seus pés -, Pablo parecia um símio. Talvez por isso, quando por momentos se espreguiçou, esticando os braços para trás com os os punhos cerrados, a sua mão direita ficou tão perto de mim e exactamente no enfiamento de Tatiana que se gerou um trompe d'oeil: vi nele um guapo servidor pronto a lamber colhões de quem mande, enquanto uma loira prende no abraço dos seus dedos crispados sujos de cimento. Apeteceu-me ter uma reacção instintiva, levantar-te da cadeira e gritar: "Pablo corrupto!". Contive-me!"
Atrás dele, numa mesa comprida Herminia tinha um esgar de horror, quem sabe se por se lembrar daqueles copos que Nino despacha nos bar atrás dos mandantes importante. Só me ocorreu rematar a exclamação com "... Stravinsky! Estão a tocar Stravinsky nos altifalantes da feira...
Pablo abriu o sorriso numa gargalhada, creio que sem ter percebido o que eu dissera, ofereceu-me a mão e ... pensei duas vezes (será que este é como os gajos de gravata...?) depois do cumprimento voltou à sua pose prostrada de macho dominante. Herminia baixou e levantou os olhos para mim, com um misto de condescendência e de cumplicidade. Eu mantive o braço direito pendido, e a mão abaixo do nível do assento, afastada do resto do corpo.
A noite decorreu sem mais incidentes. Só à saída um homem de porte enxuto que devia ter uns 60 anos me pegou pelo braço, para me sussurrar: "então o amigo confunde Smetana com Stravinsky? Fixe o que eu lhe digo: sempre que estiver a passar um daqueles separadores na televisão com lagos e cisnes, é provável que se trate da Die Moldau". Foi assim que conheci o inventor que persegue a máquina de movimento perpétuo. Ofereci-lhe a mão esquerda e ele nem reparou - pode ser que seja canhoto como eu.
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
Crónica do Baco 45
No Inverno passado, anoitecia, mas não muito cedo, entrei num comboio em Paris e só parei em Brighton, depois de uma penosa interacção com a senhora do guichet da estação de Londres. Creio que para mim o século acabou nessa mesma noite, enquanto mijava cerveja para o oceano Atlântico na praia, não muito longe de outros homens concentrados na mesma tarefa. Foi seguramente no Inverno. Não me lembro sequer do meu relationship status, se me é permitido o anacronismo, mas deduzo que estava livre, pois de outro modo não teria estado tão alerta à passagem do tempo.
Brighton é lugar triste, como sucede por toda a Inglaterra e eu ia na terceira fila do comboio ao lado do tipo de grande porte e duma inglesa com cara de caçador alentejano. O meu plano era passar a noite a contemplar o céu. Aguentei-me ao relento até que escurecesse mas arrefeceu muito e o frio era húmido. Voltei da janela enregelado até aos tomates. A inglesa de má modo irrompeu e num inglês macarrónico informou-me que tinha perdido o lugar. Fosse ela sócia da associação de caçadores alentejanos e outro galo cantaria. Lá o manageiro tem lugar marcado e cuide-se quem tomar o seu lugar. Ou se levanta ou ouve das boas.
Abriguei-me depois na casa de banho, de onde consigui ver o céu porque o tecto abateu com parte do telhado e ficou uma clarabóia de contornos definidos por barrotes quebrados e chapas mal presas - que são um perigo. Tentei fazer uma fogueira mas não encontrei jornais para atear o jogo. Fiquei uma boa hora naquele breu, que os astros não conseguiam a iluminar. Nunca tinha entrado de numa casa de banho dum comboio inglês, porque o lugar me mete medo. Em tempos encontrei lá um cadáver de rato; por vezes os pássaros assustam-se e saem de rompante pela porta que abro; vi por lá umas pinturas nas paredes; contam-me que há delinquentes a pernoitar nas retretes - é o squatting à alentejana.
Por isso sempre entrei na casa de dia já em Brighton sem demoras. Mas a imagem dos astros tão próximos uns dos outros tranqulizou-me, talvez por sentir que milhares de outras pessoas também os olhavam naquele preciso momento.
Acabei por desistir de ser caçador, mas não por medo do gajo que tem o lugar marcado , foi mesmo pelo frio. Ao chegar a casa descobri na net uma foto, tirada de Manila, provavelmente já há umas horas. Pergunto-me se Herminia, Ana, Tatiana e Cláudia sabem que se trata de Vénus e Júpiter. Quando passava na rua informei dois transeuntes que os dois pontos luminosos não eram estrelas. Teria sido uma boa forma de começar uma conversa com Tatiana que não metesse trocos. "Dizem que a lua é o sorriso e que os olhos são os planetas, Tatiana". E ela: "Eu vejo sorriso de planetas...a lua é a boca."
Brighton é lugar triste, como sucede por toda a Inglaterra e eu ia na terceira fila do comboio ao lado do tipo de grande porte e duma inglesa com cara de caçador alentejano. O meu plano era passar a noite a contemplar o céu. Aguentei-me ao relento até que escurecesse mas arrefeceu muito e o frio era húmido. Voltei da janela enregelado até aos tomates. A inglesa de má modo irrompeu e num inglês macarrónico informou-me que tinha perdido o lugar. Fosse ela sócia da associação de caçadores alentejanos e outro galo cantaria. Lá o manageiro tem lugar marcado e cuide-se quem tomar o seu lugar. Ou se levanta ou ouve das boas.
Abriguei-me depois na casa de banho, de onde consigui ver o céu porque o tecto abateu com parte do telhado e ficou uma clarabóia de contornos definidos por barrotes quebrados e chapas mal presas - que são um perigo. Tentei fazer uma fogueira mas não encontrei jornais para atear o jogo. Fiquei uma boa hora naquele breu, que os astros não conseguiam a iluminar. Nunca tinha entrado de numa casa de banho dum comboio inglês, porque o lugar me mete medo. Em tempos encontrei lá um cadáver de rato; por vezes os pássaros assustam-se e saem de rompante pela porta que abro; vi por lá umas pinturas nas paredes; contam-me que há delinquentes a pernoitar nas retretes - é o squatting à alentejana.
Por isso sempre entrei na casa de dia já em Brighton sem demoras. Mas a imagem dos astros tão próximos uns dos outros tranqulizou-me, talvez por sentir que milhares de outras pessoas também os olhavam naquele preciso momento.
Acabei por desistir de ser caçador, mas não por medo do gajo que tem o lugar marcado , foi mesmo pelo frio. Ao chegar a casa descobri na net uma foto, tirada de Manila, provavelmente já há umas horas. Pergunto-me se Herminia, Ana, Tatiana e Cláudia sabem que se trata de Vénus e Júpiter. Quando passava na rua informei dois transeuntes que os dois pontos luminosos não eram estrelas. Teria sido uma boa forma de começar uma conversa com Tatiana que não metesse trocos. "Dizem que a lua é o sorriso e que os olhos são os planetas, Tatiana". E ela: "Eu vejo sorriso de planetas...a lua é a boca."
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
Crónica do Baco 44
Ninguém melhor do que o medíocre para defender a meritocracia. As figuras públicas da cidade ... foda-se,,,, bom hoje comecei o dia com uma neura súbita e mesmo em pijama acabo de despachar a primeira encomenda. Espreguiço-me. Acerco-me da janela. A vila está tranquila. Há um rafeiro ao fundo da rua. Faz frio. Sinto-me bem. Experimento algo próximo disto quando termino de lavar a loiça, só que hoje foi muito mais forte. É aborrecido concordar com certos indivíduos, mas o trabalho liberta mesmo. O desaparecimento de figuras semipúblicas vem com um acréscimo de melancolia. Por um lado, ao contrário do que sucede com as grandes figuras públicas, não há mobilização e arrebatamento suficientes para se gerar um elogio fúnebre colectivo. Por outro, falta o pudor imposto pela amizade ou os laços familiares que temos com um desconhecido do público. Este meio-termo gera um efeito terrível: as menções são esparsas, tímidas, curtas e pode inclusive haver quem aproveite o sucedido para acertos de contas. Sobra um difuso constrangimento e um demorado calafrio. Não conheço morte púbica mais absolutamente triste do que a das figuras semipública de gajos de bigode enrolado e filhos da mãe expulsos das fileiras, armados em maiorais nas casas de putas .....
sábado, 6 de novembro de 2010
Crónica do Baco 43
O único surfista vivo de Estremoz vai andar esta noite por Borba, entre a Capela dos Mareantes e a Igreja dos Aflitos, para que eu possa ouvir por telemóvel o concerto gregoriano de Sofia Cascalho (cravo) e Duarte Lamas (guitarra). Tocarão Dodgson e Bach e todos os coros gregorianos do Alentejo. Ainda bem que é a sul do Tejo. Sempre que atravessa a estrada nacional, o puto tem manifestações psicossomáticas e sinto-me obrigado a reforçar-lhe a diária de alka seltzer.
Valha-nos o zeloso funcionário que passeia o filho no Toyota branco, ouvindo Dodgson, Bach, Quim Barreiros e outros autores eruditos.
Até agora passei um péssimo fim-de-semana, mas entretanto percebi o motivo: dei um tremendo trambolhão na passada quinta-feira. O que surpreende não é o trambolhão, mas a vaga lembrança de ter errado a escadaria depois do petisco- só isso me levou a procurar o erro. Se agora me sinto envergonhado, prevalece a sensação de alívio. Obrigado a todos os estremocenses que tiveram a gentileza de me deixar fazer este caminho sozinho. É um privilégio poder dar um trambolhão em público e corrigi-lo depois, sem ter de andar de porta em porta com aquela tinta correctora, com a ânsia de não falhar um único exemplar do jornal. Esta é a grande vantagem da blogosfera sobre a imprensa. Se não fosse o Toyota, tava fodido...
Valha-nos o zeloso funcionário que passeia o filho no Toyota branco, ouvindo Dodgson, Bach, Quim Barreiros e outros autores eruditos.
Até agora passei um péssimo fim-de-semana, mas entretanto percebi o motivo: dei um tremendo trambolhão na passada quinta-feira. O que surpreende não é o trambolhão, mas a vaga lembrança de ter errado a escadaria depois do petisco- só isso me levou a procurar o erro. Se agora me sinto envergonhado, prevalece a sensação de alívio. Obrigado a todos os estremocenses que tiveram a gentileza de me deixar fazer este caminho sozinho. É um privilégio poder dar um trambolhão em público e corrigi-lo depois, sem ter de andar de porta em porta com aquela tinta correctora, com a ânsia de não falhar um único exemplar do jornal. Esta é a grande vantagem da blogosfera sobre a imprensa. Se não fosse o Toyota, tava fodido...
domingo, 31 de outubro de 2010
Crónica do Baco 42
O pior momento do dia de um deprimido é a manhã. Isto é algo paradoxal, porque à medida que a vida decorre, isto é, que o dia avança, o deprimido melhora a sua condição. Foda-se eu já estava deprimido ... mas dar de trombas com um gajo daqueles com o cu na melhor pousada do país, deprime até a Lady Gaga.. Parece que viver, afinal, não é assim tão mau e que o difícil é o arranque da entrevista .... O paralelo com o jornalista é óbvio: quanto menos embalada for a bicicleta, mais difícil é manter o equilíbrio da espinha- mas isto é só uma comparação e as comparações estão para as explicações como as correlações para a causalidade. Enfim, o que queria dizer é muito simples: ao acordar, o deprimido deve de imediato criar uma situação de vida. Idealmente, o deprimido acordaria convencido de que o prédio está em chamas ou que tem um tigre da Sibéria entre os lençóis, mas também serve um gole de gaspacho suficientemente acondimentado para o transportar até ao calor de um começo de tarde. O importante é evitar o leite, o café e os cereais. Tentem antes marisco, se não gostam de gaspacho. O importante é não terminar o dia sóbrio. Merda .... experimentem falar para o microfone babando cerveja ....
domingo, 17 de outubro de 2010
Crónica do Baco 41
Sonhei que urinava contra uma parede, vestido de luzes, e que alguém se aproximava de mim para conviver urinando. Entabulámos uma conversa demasiado longa para o volume das nossas bexigas, mas a urina parecia vir directamente do reservatório de água de Borba, pois não havia forma de acabar. Se fosse do reservatório de Estremoz, nem chegávamos a mijar....
A dada altura faltou-nos assunto, o gajo que estava a urinar começou a desenhar os círculos dos Jogos Olímpicos no chão de terra e eu, que topara a ideia ainda ele não havia acabado o segundo circulo dos de cima, comecei logo a fazer os dois da parte inferior. Quando ele concluía o seu terceiro e eu o meu segundo, a nossa urina cruzou-se pela primeira vez. Foi apenas um instante e a trajectória da urina de um e outro quase não sofreu desvio, só que eu senti uma impressão - coisa psicossomática - e o piqueno também ficou perturbado. Logo a urina de ambos deixou de jorrar e nos despedimos atabalhoadamente, indo cada um para seu lado. O símbolo dos Jogos Olímpicos ficou incompleto e o rafeiro da protecção civil que depois passou por lá apenas esgravatou um dos círculos. Não arrisco uma interpretação deste sonho...
Acordei. A manhã está a ser fértil em versos avulsos para Tatiana e Herminia. Tomei algumas notas de guitarra sobre a perna, numa lógica de preenchimento futuro dos espaços em branco, que se aproxima muito da minha anterior forma de viver. Entretanto corrigi alguns plurais, para evitar uma rima e diminuir as chiantes suaves, um som que é inimigo das melodias. Sinto que esta canção entrou finalmente numa dinâmica de vitória. Foram precisos meses, mas o binómio talento-suor não capta o que aqui se passou. O que houve foi paciência. Aprendi uma lição. Em Estremoz quando dormimos o melhor é fingir que estamos a sonhar. Foda-se!
A dada altura faltou-nos assunto, o gajo que estava a urinar começou a desenhar os círculos dos Jogos Olímpicos no chão de terra e eu, que topara a ideia ainda ele não havia acabado o segundo circulo dos de cima, comecei logo a fazer os dois da parte inferior. Quando ele concluía o seu terceiro e eu o meu segundo, a nossa urina cruzou-se pela primeira vez. Foi apenas um instante e a trajectória da urina de um e outro quase não sofreu desvio, só que eu senti uma impressão - coisa psicossomática - e o piqueno também ficou perturbado. Logo a urina de ambos deixou de jorrar e nos despedimos atabalhoadamente, indo cada um para seu lado. O símbolo dos Jogos Olímpicos ficou incompleto e o rafeiro da protecção civil que depois passou por lá apenas esgravatou um dos círculos. Não arrisco uma interpretação deste sonho...
Acordei. A manhã está a ser fértil em versos avulsos para Tatiana e Herminia. Tomei algumas notas de guitarra sobre a perna, numa lógica de preenchimento futuro dos espaços em branco, que se aproxima muito da minha anterior forma de viver. Entretanto corrigi alguns plurais, para evitar uma rima e diminuir as chiantes suaves, um som que é inimigo das melodias. Sinto que esta canção entrou finalmente numa dinâmica de vitória. Foram precisos meses, mas o binómio talento-suor não capta o que aqui se passou. O que houve foi paciência. Aprendi uma lição. Em Estremoz quando dormimos o melhor é fingir que estamos a sonhar. Foda-se!
sábado, 9 de outubro de 2010
Crónica do Baco 40
Regressei do monte à boleia. Agora que a chuva voltou, sinto orgulho nos meus tupperwares. Também sinto orgulho da minha ausência de vida nesta cidade, inclusive no Verão. Seria muito fácil enlouquecer em Estremoz, mas tenho a certeza de que tal nunca sucederá. A cultura virou coltura mas em Lisboa era ao contrário. Parecia difícil ficar louco por lá, mas comecei a desconfiar que era só uma questão de tempo. Estremoz salvou-me. Mas agora está-me a põr doente. Foda-se aqui deixou de acontecer, como verbalizaria o Carlos Pinto Coelho....
Regressei ontem a Zafra, pela mão, foda-se digo pelo carro de dois amigos. Ludibriei a Herminia dizendo que ía a um velório a Badajoz e confiei no corrimão verde, saltei a cancela. Percorri o chão de tijoleira sob o alpendre sem hesitar, mas estanquei diante da porta. Foi a um fim de tarde, tinha o poente pelas costas. A luz era a mais reconfortante de todas, uma luz quente que nunca aparece nas cenas de terror. Mas nem assim fui capaz de entrar na casa das putas em Badajoz. Estes gajos dizem que vão a um velório e enfiam-se na primeira casa de gajas que conhecem. Mierda!
Não tive medo que lá dentro o soalho cedesse, nem dos bichos que entretanto se terão instalado, nem de um improvável vagabundo, nem de confrontar as memórias com o lugar. Tive medo de encontrar a minha avó e de ela querer cobrar-me pela vez em que, por acidente, a derrubei. Foi a única interacção que tive com ela, pois sempre a conheci doente.
Regressei ontem a Zafra, pela mão, foda-se digo pelo carro de dois amigos. Ludibriei a Herminia dizendo que ía a um velório a Badajoz e confiei no corrimão verde, saltei a cancela. Percorri o chão de tijoleira sob o alpendre sem hesitar, mas estanquei diante da porta. Foi a um fim de tarde, tinha o poente pelas costas. A luz era a mais reconfortante de todas, uma luz quente que nunca aparece nas cenas de terror. Mas nem assim fui capaz de entrar na casa das putas em Badajoz. Estes gajos dizem que vão a um velório e enfiam-se na primeira casa de gajas que conhecem. Mierda!
Não tive medo que lá dentro o soalho cedesse, nem dos bichos que entretanto se terão instalado, nem de um improvável vagabundo, nem de confrontar as memórias com o lugar. Tive medo de encontrar a minha avó e de ela querer cobrar-me pela vez em que, por acidente, a derrubei. Foi a única interacção que tive com ela, pois sempre a conheci doente.
terça-feira, 28 de setembro de 2010
Crónica do Baco 39
Antes de deixar Lisboa era recorrente dizerem-me que deixava todos os projectos e leituras a meio. Vamos corrigir essa imagem. Enfim, não será uma correcção com efeitos retroactivos, pois já não me dou com essas pessoas. Mas retomemos as leituras que estão indexadas nos planos de viagens que ciclicamente fazia desde a capital até à provincia e vice versa, nos tempos das viagens de camioneta dos Belos que parava em Setúbal, Montemor e aterrava em Estremoz altas horas da matina. Nesse tempo as mulheres tinha palavra e não se vendiam por um prato de lentilhas mas a humanidade é bastante imperfeita, porque as mulheres são menos imperfeitas do que os homens. Os homens tendem a adiar o confronto. As mulheres tendem a recorrer ao telefone para divulgar as más notícias, sejam elas deixar o namorado ou mudar de vida. Este arranque, que parece saído da Cosmopolitan, na verdade assenta numa experiência de vida. Viva Estremoz e o telegrama. Em síntese, era isto. Mas deixo ainda uma nota final de ordem prática. É aconselhável ter sempre o telemóvel com pouca bateria. As conversas longas são invariavelmente conversas que não desejamos ter e interrompê-las por razões de ordem técnica é um luxo. Quem está a ficar desesperado, ou a perder a paciência, ou profundamente triste, ou surpreendido pela sua apatia, ou prestes a explodir, pode esconder o que sente e salvar-se, anunciando: "olha, vou ficar sem bateria". Depois o telefone morre, como que a reforçar uma ordem natural das coisas. Trata-se de um acidente forjado, claro, mas na altura não se dá por isso e daí virá algum conforto.
Por isso Estremoz é uma oficina de diários.O facto das viagens serem inventadas é irrelevante, pois pensei nelas precisamente durante os dias mencionados, e agora limito-me a escrever sobre a lembrança desses pensamentos. E só de pensar nas viagens, fico com os olhos em bico.
Por isso Estremoz é uma oficina de diários.O facto das viagens serem inventadas é irrelevante, pois pensei nelas precisamente durante os dias mencionados, e agora limito-me a escrever sobre a lembrança desses pensamentos. E só de pensar nas viagens, fico com os olhos em bico.
sábado, 18 de setembro de 2010
Crónica do Baco 38
Passei a tarde a brincar com uma folha Excel. Como vou continuar em Estremoz até gastar o que herdei em 2008-2009, calculo que as minhas economias dão para viver até Março de 2012. Não contei a inflação, foda-se quem se importa com essa merda isso é coisa de jornalistas merdosos e outros especuladores. Quando ninguém depende de nós, a vida passa a ser um jogo de computador. Não é só a ausência de importância e um desprezo que cria a ilusão de que há sempre uma nova oportunidade. É sobretudo a sensação de viver em permanente experiência extra-corpórea, como se nos observássemos de fora e a nossa essência fosse mais a de quem observa do que a da figura activa, esse boneco que vamos observando. Por definição, o AJG é um desalinhado, que mais poderia chamar a este cretino injusto mesquinho e desonesto? Mas seria injusto não assinalar o regresso dum gajo que consegue ser eremita mesmo quando rodeado de pessoas por todos os lados, coisa que admiramos.
Pffff vou beber mais um whisqy antes que recomece o filme ...
Pffff vou beber mais um whisqy antes que recomece o filme ...
domingo, 5 de setembro de 2010
Crónica do Baco 37
O grande problema do caçador-recolector não é encontrar comida, mas preservá-la. Isto não é uma metáfora para as relações amorosas, faço notar. Não é mesmo. Um homem precisa de comer. Ontem meti-me em trabalhos, matei uma perdiz e vi-me obrigado a assá-la por inteiro, porque não tinha forma de conservar a carne. Não sei secar carne ao sol, nem como a salgar. Ainda pensei em convidar o moço de recados para jantar comigo, mas estaria a violar ainda mais a minha condição. Ele agora tem mais que fazer.. só cheira a criolina ... mesmo de férias ...vai ao estaleiro dar ordens aos seus funcionários.
Estava boa, a perdiz. E aquele lustro da gordura que aflora quando a carne está sob as chamas fez do crepúsculo uma vinheta cheia de sombra e luz. Em que álbum subitamente me reconheci? Talvez num dos do Blueberry. Ah, o Blueberry... o tal que joga ao berlinde e à malha (ah a malha, os estremocenses gostam deste estranho jogo )...
Estava boa, a perdiz. E aquele lustro da gordura que aflora quando a carne está sob as chamas fez do crepúsculo uma vinheta cheia de sombra e luz. Em que álbum subitamente me reconheci? Talvez num dos do Blueberry. Ah, o Blueberry... o tal que joga ao berlinde e à malha (ah a malha, os estremocenses gostam deste estranho jogo )...
sábado, 28 de agosto de 2010
Crónica do Baco 36
Variei totalmente no destino de férias. Um quarto só para mim à beira da barragem é um deleite inconfundível, mas estou triste e frustado. Não consigo boiar na barragem. Dizem que é da falta de salinidade, mas eu sei que é por ter a consciência pesada. Aliás, faz sentido explorar a tese de que a culpa judaico-cristã é indissociável da proximidade do Mar Morto. No Mar Morto a salinidade é tão elevada que o difícil é não flutuar, mas alguém deve ter sido o primeiro a ir ao fundo. Daí nasceu a noção de peso na consciência e um teste inequívoco.
Entretanto a minha empregada, tem uma nova e espinhosa missão. Visita-me todos os dias, aqui nas margens da barragem, e entrego-lhe umas notas que ele depois publica no blogue quando chega a Estremoz (dei-lhe as chaves de casa e a senha do Baco). Ainda pensei em transmitir os meus posts por telefone, mas o nível de literacia da mulher iria semear o Baco com ortografia liceal e testar os limites da paciência dos leitores. Traz-me também jornais, que leio antes da hora do almoço e que depois uso para atiçar a fogueira em que cozinho o jantar. Hoje será um achigã escalado. Conto escrever sobre o firmamento nos próximos dias, assim que o céu fique completamente limpo. Disse também ao moço filho de Tatiana para trazer a prancha amanhã. Quero fotografar os surfistas na barragem.
Entretanto a minha empregada, tem uma nova e espinhosa missão. Visita-me todos os dias, aqui nas margens da barragem, e entrego-lhe umas notas que ele depois publica no blogue quando chega a Estremoz (dei-lhe as chaves de casa e a senha do Baco). Ainda pensei em transmitir os meus posts por telefone, mas o nível de literacia da mulher iria semear o Baco com ortografia liceal e testar os limites da paciência dos leitores. Traz-me também jornais, que leio antes da hora do almoço e que depois uso para atiçar a fogueira em que cozinho o jantar. Hoje será um achigã escalado. Conto escrever sobre o firmamento nos próximos dias, assim que o céu fique completamente limpo. Disse também ao moço filho de Tatiana para trazer a prancha amanhã. Quero fotografar os surfistas na barragem.
domingo, 15 de agosto de 2010
Crónica do Baco 35
David Foster Wallace dizia que um dos seus defeitos como escritor era não conseguir resistir a uma piada. Esta tentação, sobretudo na ausência de reedeming features, pode transformar uma terreola como Estremoz numa má comédia, quando gostaria de calibrar o texto como tragicomédia ou até mesmo como uma tragicomédia rematada de uma forma esclarecedoramente trágica. A fixação de alguns cidadãos estremocenses nos petiscos de quinta feira a pretexto duma reunião politica é um filão histriónico, tenho perfeita noção disso, e sinto-também.
A entrada de Francisco nesta história também a vem perturbar pelo excesso de realismo. Há dois anos, praticamente que não tinha pátria, nem nomes de ruas e os diálogos eram imaginados como se ditos em Esperanto. Nos últimos dias, procuro, através de Hermínia, cada vez mais a minha confidente, saber promenores das quintas feiras do petisco e agendei já umas conversas com o inventor, do tipo "em que o moço de recados vai fingir-se interessado na compra de umas casas," e depois tiramos umas fotografias aos pormenores.
Hermínia voltou a falar-me do antigo funcionário municipal que agora reformado, tira de vez em quando o fato puído a cheirar a naftalina e passeia-se com ar importante por aí, mas eu não sei quem é e abrimos caminho com uma corda bamba, mas o importante é que finalmente caminhamos. E é curioso reparar que as personagens se levantam todas mais ou menos ao mesmo tempo, como mortos-vivos que despertam e passeiam-se por aí....
Ás quartas assistem á reunião e á quinta embebedam-se.... Bela vida!
A entrada de Francisco nesta história também a vem perturbar pelo excesso de realismo. Há dois anos, praticamente que não tinha pátria, nem nomes de ruas e os diálogos eram imaginados como se ditos em Esperanto. Nos últimos dias, procuro, através de Hermínia, cada vez mais a minha confidente, saber promenores das quintas feiras do petisco e agendei já umas conversas com o inventor, do tipo "em que o moço de recados vai fingir-se interessado na compra de umas casas," e depois tiramos umas fotografias aos pormenores.
Hermínia voltou a falar-me do antigo funcionário municipal que agora reformado, tira de vez em quando o fato puído a cheirar a naftalina e passeia-se com ar importante por aí, mas eu não sei quem é e abrimos caminho com uma corda bamba, mas o importante é que finalmente caminhamos. E é curioso reparar que as personagens se levantam todas mais ou menos ao mesmo tempo, como mortos-vivos que despertam e passeiam-se por aí....
Ás quartas assistem á reunião e á quinta embebedam-se.... Bela vida!
sábado, 31 de julho de 2010
Crónica do Baco 34
A circunstância ocasional de férias em Estremoz é uma utopia a que não me poupo desde que me mudei para a província vai para quatro anos e, não entendo os estremocenses que soltam energias terpidantes só porque se aventuram pelos areias para sair deste sossego alentejano. Esta semana voltei a ver a cor barrenta da água da minha banheira, embora Hermínia me afiance que era o barro dos meus tornoselos depois de aventurar num passeio pelos novos terrenos que adquiri a bom preço na vila de Veiros na cercania da barragem de Veiros. Enquanto Herminia se esforçava por me ensaboar a omoplatas com uma esponja amarela de duvidosa qualidade, senti uma tumefacção envergonhada na zona púbica, que me fez estremecer. A irrigação sanguínea só foi interrompida pelo barulho estridente de vidros a partir-se seguido de tumoltosa discussão a que Herminia atribuiu ás desavenças dum casal e pretendia regressar ás minhas costas com a esponja em riste, mas eu já tinha parado de me entusiasmar- Não gosto de desacatos na minha rua.
Igor já voltou de férias. O inventor ignora o calor do Verão e esforça-se a explicar-me as terapias da sesta alentejana. Aderi ao sacrilégio e não sei quem possa sair daqui para ir de férias.
Igor já voltou de férias. O inventor ignora o calor do Verão e esforça-se a explicar-me as terapias da sesta alentejana. Aderi ao sacrilégio e não sei quem possa sair daqui para ir de férias.
quarta-feira, 23 de junho de 2010
Crónica do Baco 33
A paixão segura por uma mulher acontece quando ela já dobrou a menopausa. Chego a esta conclusão em relativo alvoroço, depois de ver a barriga de Tatiana. Odeio futebol. Não sei se consigo encontrar alguma ligação entre o número de vezes que tenho procurado Tatiana e a carrada de minutos que a televisão emite futebol índigena.
Tatiana adora futebol. Não que perceba alguma coisa do jogo, mas porque sabe que o meu exercício de solidão, termina cada vez que rola a bola. Sou um eremita em Estremoz. Soube hoje pelo inventor que abundam as histórias de homens casados que largam as mulheres para se juntar as mulheres casadas que laragarm os homens. Não vejo qualquer problema nem a idade delas ou dels pode ser problema porque só exclui as mulheres da sua vida quem não as suporta ou quem as teme. O derradeiro teste à urbanidade de um homem é a gravidez de uma antiga namorada de quem ficou amigo ou saber que a gaja que lhe engoma as camisas também prega uns botões na camisa do vizinho. Quanto mais antigo é a relação e maior a amizade, mais duro é o teste. Mas estas hipóteses não são mutuamente exclusivas. Aliás, fazer regra do casamento exclusivo é provavelmente a maior concessão dos casais com estilo. As consequências deste capricho são incomensuráveis, mas sempre graves. Eles batem-lhe e elas riem-se. Ás vezes, chiça, quase sempre, porra, sempre, sempre com razão. Elas gozam os gajos que gostam de tutebol.
Eu acho que um macho que queira bater na fêmea "a sério", ou vice versa, tem de incluir uma enxada ou uma picareta. Nada de armas de fogo (isso é para cobardes). É preciso sentir no antebraço a vibração de um crânio ou de um tórax que cede à lâmina de uma enxada acelerada num movimento de braços. Não se tem a mesma sensação com o coice da caçadeira.
Tatiana adora futebol. Não que perceba alguma coisa do jogo, mas porque sabe que o meu exercício de solidão, termina cada vez que rola a bola. Sou um eremita em Estremoz. Soube hoje pelo inventor que abundam as histórias de homens casados que largam as mulheres para se juntar as mulheres casadas que laragarm os homens. Não vejo qualquer problema nem a idade delas ou dels pode ser problema porque só exclui as mulheres da sua vida quem não as suporta ou quem as teme. O derradeiro teste à urbanidade de um homem é a gravidez de uma antiga namorada de quem ficou amigo ou saber que a gaja que lhe engoma as camisas também prega uns botões na camisa do vizinho. Quanto mais antigo é a relação e maior a amizade, mais duro é o teste. Mas estas hipóteses não são mutuamente exclusivas. Aliás, fazer regra do casamento exclusivo é provavelmente a maior concessão dos casais com estilo. As consequências deste capricho são incomensuráveis, mas sempre graves. Eles batem-lhe e elas riem-se. Ás vezes, chiça, quase sempre, porra, sempre, sempre com razão. Elas gozam os gajos que gostam de tutebol.
Eu acho que um macho que queira bater na fêmea "a sério", ou vice versa, tem de incluir uma enxada ou uma picareta. Nada de armas de fogo (isso é para cobardes). É preciso sentir no antebraço a vibração de um crânio ou de um tórax que cede à lâmina de uma enxada acelerada num movimento de braços. Não se tem a mesma sensação com o coice da caçadeira.
quinta-feira, 10 de junho de 2010
Crónica do Baco 31
Acabo de ler O Testítulo Esquerdo: Alguns aspectos da Demonização do Feminino, de Clara Pinto Correia. É um livrinho muito agradável, que se consome em hora e meia e justifica o que por ele paguei na Feira do Livro do Porto. O inventor disse-me que ocorreu uma em Estremoz, mas como há dois meses que não ponho os pés na minha casa, não dei por ela. Não me custa recomendar o livrinho, também por gostar de Clara Pinto Correia, de resto, ela própria uma figura demonizada desde o incidente do plágio. Clara Pinto Correia é demasiado grande para Portugal, que não é suficientemente pequeno para lhe dar o seu devido valor - um dia explico esta aparente contradição.
O nome do livro faz alusão à crença, que remonta pelo menos ao tempo de Moisés, de que "só um dos testículos do homem operava em cada ejaculação, uma vez que de cada parto só nascia, por regra, uma criança" - os gémeos resultavam de uma dupla descarga, coisa rara, e o pai de trigémeos teria três testículos. Volto a Estremoz para confessar que aqui faltam gajos de testículos pretos e como diz a Herminia teve cinco filhos e ainda está á espera que os pais apareçam para a ajudarem a dar de comer aos petizes. Só agora é que percebo que a minha empregada dormiu com vários homens.
No livrinho ods testículos o que surpreende é a facilidade com que se provaria a inverosimilhança desta tese, embora talvez o pudor tivesse explicado que ninguém fosse confirmar a existência do trio de testículos nos pais de trigémeos. Aliás, esta suspensão da descrença é ainda mais incrível no caso da telegonia, a teoria das impressões maternas, que dizia ser a imaginação da mulher uma poderosa arma na remodelação do feto, apontando como exemplo a criança de uma princesa branca que nasceu "negra como um mouro" só porque sua mãe teria olhado para um quadro com um mouro no momento em que estava a ter relações sexuais com o príncipe. Como surpreende este teste de virgindade: "se atirarem sementes de papoila sobre carvão a arder e uma rapariga que foi deflorada inalar o fumo, verá coisas maravilhosas; se a rapariga for casta, não verá nada de extraordinário" (The Complete Masterpiece, 1741). A ideia não só é absurda por fazer o resultado de um teste da virgindade dependente da reacção ao ópio, como por fazer da mulher sob suspeita relatora do seu próprio teste. Deste e de muitos outros exemplos descritos no livro, podemos concluir que a demonização da mulher pelo homem tem feito um longo caminho e evoluiu para formas correntes já muito distantes das de antigamente pelo seu grau de apuramento, como é do conhecimento geral.
O nome do livro faz alusão à crença, que remonta pelo menos ao tempo de Moisés, de que "só um dos testículos do homem operava em cada ejaculação, uma vez que de cada parto só nascia, por regra, uma criança" - os gémeos resultavam de uma dupla descarga, coisa rara, e o pai de trigémeos teria três testículos. Volto a Estremoz para confessar que aqui faltam gajos de testículos pretos e como diz a Herminia teve cinco filhos e ainda está á espera que os pais apareçam para a ajudarem a dar de comer aos petizes. Só agora é que percebo que a minha empregada dormiu com vários homens.
No livrinho ods testículos o que surpreende é a facilidade com que se provaria a inverosimilhança desta tese, embora talvez o pudor tivesse explicado que ninguém fosse confirmar a existência do trio de testículos nos pais de trigémeos. Aliás, esta suspensão da descrença é ainda mais incrível no caso da telegonia, a teoria das impressões maternas, que dizia ser a imaginação da mulher uma poderosa arma na remodelação do feto, apontando como exemplo a criança de uma princesa branca que nasceu "negra como um mouro" só porque sua mãe teria olhado para um quadro com um mouro no momento em que estava a ter relações sexuais com o príncipe. Como surpreende este teste de virgindade: "se atirarem sementes de papoila sobre carvão a arder e uma rapariga que foi deflorada inalar o fumo, verá coisas maravilhosas; se a rapariga for casta, não verá nada de extraordinário" (The Complete Masterpiece, 1741). A ideia não só é absurda por fazer o resultado de um teste da virgindade dependente da reacção ao ópio, como por fazer da mulher sob suspeita relatora do seu próprio teste. Deste e de muitos outros exemplos descritos no livro, podemos concluir que a demonização da mulher pelo homem tem feito um longo caminho e evoluiu para formas correntes já muito distantes das de antigamente pelo seu grau de apuramento, como é do conhecimento geral.
segunda-feira, 31 de maio de 2010
Crónica do Baco 30
Tenho um desprezo quase total pelos politicos. A impressão que fica é de que vale tudo, desde que não se atropele muito a lógica. Acreditamos num líder político se nos disser: "essa medida foi inteligentíssima e eu estou aqui para unir o partido e tal, e depois guardar o seu discurso para os momentos grandes porque vai beneficiar desse efeito galavanizador,".
Os politicos são quase todos mentirosos. Ora imagine que para além de politicos ainda são professores. Foda-se. Não há pachorra!
As pessoas não estão com vontade de ouvir os políticos, muito menos se são professores. Nem é uma novidade. O inventor é que diz, se e´professor e vai para político, tem que ser muito mau professor. Se o público acreditar sempre no que lhe dizem, está assegurado um contraditório que não assenta em qualquer contradição, antes na vontade de dizer sempre alguma coisa, porque terá razão quem fica com a última palavra. É uma regra simples que perpetua esta feira. Tão simples como escrever "Volte, s.f.f" de ambos os lados de uma folha branca, para a tal loira ficar perpetuamente entretida e não aborrecer muito. A loira somos nós.
Os politicos são quase todos mentirosos. Ora imagine que para além de politicos ainda são professores. Foda-se. Não há pachorra!
As pessoas não estão com vontade de ouvir os políticos, muito menos se são professores. Nem é uma novidade. O inventor é que diz, se e´professor e vai para político, tem que ser muito mau professor. Se o público acreditar sempre no que lhe dizem, está assegurado um contraditório que não assenta em qualquer contradição, antes na vontade de dizer sempre alguma coisa, porque terá razão quem fica com a última palavra. É uma regra simples que perpetua esta feira. Tão simples como escrever "Volte, s.f.f" de ambos os lados de uma folha branca, para a tal loira ficar perpetuamente entretida e não aborrecer muito. A loira somos nós.
sábado, 22 de maio de 2010
Crónica do Baco 29
Saí com a máquina fotográfica dentro do estojo para ir fotografar o castelo. Não a torre de menagem, um resto de muralha, sequer uma ameia, mas apenas para observar a parte mais elevada da cidade é assim se referem à zona do reservatório de água com uma área circundante mais ou menos ajardinada. Ali existe uma pérgula com vinha que dá uma sombra agradável e a vista sobre o casario é empolgante, apetece logo conquistar Marrocos (vide Woody Allen). Ainda antes de lá chegar encontrei um velhote num banco de jardim, que mal me viu pegou numa viola campaniça e começou a tocar uma modinha. Pensei que me desafiava para uma desgarrada e sentei-me, com ideias de apenas o ouvir. Assim foi. Depois ele disse qualquer coisa que não percebi bem (é desdentado) e começou a improvisar umas quadras sobre o filho que é trabalhador da autarquia e anda descontente com a mudança de horário. Há poucas coisas neste mundo mais desagradáveis do que ouvir um velho desdentado dar eco ao descontentamento do filho. Mas o velho tinha um instinto melódico apurado, espremeu a língua a dizer mal do gajo que mudou o horário até chegar uma senhora gorda e avantajada, que jurei já ter visto nos cartazes da politica. Disse ela que os gajos não trabalham e quem manda é que pode. Vendida! Disse o velho depois dela abalar. Andou o tocar o bombo por uns e agora mama no tacho já diz que os outros é que o são.
Convidei-o a subir comigo ao castelo, mas creio que me disse já não ter pernas para subir aquela rua. Espero voltar a vê-lo.
Subi a rua íngreme com menos ligeireza. Os anos vão-me tratando bem. Se é verdade que também vão tardando outras coisas, ainda tardam a calvície e a barriga. Já no cimo, batido por uma aragem fresca, um cartaz amarrotado atravessou-se à minha frente. Rodando, galguei o lancil do passeio e fui pela rua direita abaixo, ganhando velocidade até encontrar uma tasca que tresanda a copos de vinho. Julguei ter visto o rosto de um preto numa das suas pontas e lembrei-me de Ricardo Chibanga. Há anos que a imagem de um cartaz alado de Ricardo Chibanga me persegue, ora descolando-se, ora indo do chão para a parede, como numa sequência com a seta do tempo invertida. No cartaz desta manhã havia um preto, quase juro, mas não o Chibanga; seria por certo uma estrela de hip-hop. Diz a Hermínia que as estrelas do ídolos levaram o dinheiro todo de Estremoz....
Aguentei-me no castelo até quase ao meio-dia, estudando Villa-Lobos. Depois começou a fazer muito calor, mesmo à sombra.
Fiquei em casa a ler durante a tarde até o Luís me telefonar a informar que ia ao S.Romão. Onde? Ao S. Romão!
Já sei que ele virá em mau estado, por isso recuso e virei-me para a música. O meu irmão deixou-me a guitarra, o computador, roupa e três caixotes com livros. Tenho 12 metros de prateleiras em casa para que preciso do pó e vinho?. Quanto tempo preciso de ficar aqui até ter lido 12 metros de lombadas? Comecei pelo Crimes Exemplares, de Max Aub. É o exemplo acabado de como um conjunto de boas histórias não é suficiente para fazer um bom livro. Como quase todas seguem a mesma estrutura, Aub não se limita a destruir a tensão do policial, consegue mesmo aborrecer. Julga que banalizar o crime mais horrendo chega para seduzir o leitor e aplica a fórmula ad nauseam, mas o que o leitor interioriza não é a banalização do crime horrendo, é a banalização do método de Aub. Enfim, antes sacrificar um autor do que inocentes às mãos de um eventual leitor perturbado pelo génio do escritor. Como se não bastasse a rigidez estrutural, Aub tem insuficientes obsessões para diversificar as histórias. Quantos criminosos por intolerância com a falta de pontualidade estamos dispostos a aturar? Ainda menos do que os criminosos que não toleram gente palradora. Parece que este é um livro de culto, mas há cultos que não se entendem. Em todo o caso, perfiz 2 cm.
Convidei-o a subir comigo ao castelo, mas creio que me disse já não ter pernas para subir aquela rua. Espero voltar a vê-lo.
Subi a rua íngreme com menos ligeireza. Os anos vão-me tratando bem. Se é verdade que também vão tardando outras coisas, ainda tardam a calvície e a barriga. Já no cimo, batido por uma aragem fresca, um cartaz amarrotado atravessou-se à minha frente. Rodando, galguei o lancil do passeio e fui pela rua direita abaixo, ganhando velocidade até encontrar uma tasca que tresanda a copos de vinho. Julguei ter visto o rosto de um preto numa das suas pontas e lembrei-me de Ricardo Chibanga. Há anos que a imagem de um cartaz alado de Ricardo Chibanga me persegue, ora descolando-se, ora indo do chão para a parede, como numa sequência com a seta do tempo invertida. No cartaz desta manhã havia um preto, quase juro, mas não o Chibanga; seria por certo uma estrela de hip-hop. Diz a Hermínia que as estrelas do ídolos levaram o dinheiro todo de Estremoz....
Aguentei-me no castelo até quase ao meio-dia, estudando Villa-Lobos. Depois começou a fazer muito calor, mesmo à sombra.
Fiquei em casa a ler durante a tarde até o Luís me telefonar a informar que ia ao S.Romão. Onde? Ao S. Romão!
Já sei que ele virá em mau estado, por isso recuso e virei-me para a música. O meu irmão deixou-me a guitarra, o computador, roupa e três caixotes com livros. Tenho 12 metros de prateleiras em casa para que preciso do pó e vinho?. Quanto tempo preciso de ficar aqui até ter lido 12 metros de lombadas? Comecei pelo Crimes Exemplares, de Max Aub. É o exemplo acabado de como um conjunto de boas histórias não é suficiente para fazer um bom livro. Como quase todas seguem a mesma estrutura, Aub não se limita a destruir a tensão do policial, consegue mesmo aborrecer. Julga que banalizar o crime mais horrendo chega para seduzir o leitor e aplica a fórmula ad nauseam, mas o que o leitor interioriza não é a banalização do crime horrendo, é a banalização do método de Aub. Enfim, antes sacrificar um autor do que inocentes às mãos de um eventual leitor perturbado pelo génio do escritor. Como se não bastasse a rigidez estrutural, Aub tem insuficientes obsessões para diversificar as histórias. Quantos criminosos por intolerância com a falta de pontualidade estamos dispostos a aturar? Ainda menos do que os criminosos que não toleram gente palradora. Parece que este é um livro de culto, mas há cultos que não se entendem. Em todo o caso, perfiz 2 cm.
domingo, 16 de maio de 2010
Crónica do Baco 28
Apesar da existência frugal dos haveres da querida mamã, a minha conta bancária está a entrar no vermelho depois de 2 semanas instalado em Fátima. Sucede que, para meu espanto e possível salvação não estive em Estremoz nos últimos onde decorreu uma Feira Internacional (como diz a Tatiana). João Paulo II a um piqueno passo é o mesmo que partilhar o ar que Bento XVI respirou em Fátima. Sei bem que a fronteira entre a ficção e a realidade é por vezes ténue, mas eu estou demasiado gordo para fazer strip-teases morais à frente de tanta gente e regressei ao santuário com mais fé do que antigamente. Beijar as mãos do Santo Padre não se concretizou por manifesta megalomania.
No final da missa houve um pequeno incidente: uma das libertinas de Lisboa levantou-se e quis contar-nos a história de um familiar estremocense, que, depois de mudar de vida, terá comido e bebido em excesso e foi transportado ao hospital para ser socorrido, pelo caminho a revolução nos intestinos falou mais alto e borrou-se pelas pernas no carro presidencial. Ninguém da hierarquia papal achou piada ao relato da libertina que mais parecia ter transposto fronteiras à paisana com a ideia fixa de assassinar Manfred Albrecht Freiherr von Richthofen, o Barão Vermelho, para assim vingar o seu pai, que integrou o Corpo Expedicionário Português e terá morrido na batalha de la Lys, a 9 de Abril de 1918.
segunda-feira, 26 de abril de 2010
Crónica do Baco 27
Volta a polémica. Pedi ao moço que fizesse uma pesquisa e me trouxesse textos de apoio à tourada. Os textos contra a tourada não me interessam, porque sei que têm razão. O que me interessa é conciliar o meu gosto pelos toiros com a minha razão. Infelizmente, nem um advogado perdido de amores por gente nova me resolve o problema. Sentei a Tatiana, a Herminia e o Inventor e pedi-lhe que revelassem o diz-se disse de Estremoz. Sucede que, para meu espanto e possível salvação, o Inventor disse logo que não falava e trouxe-me toda a correspondência com o advogado que lhe escreve todas as sextas feiras e no meio do lixo habitual descobri uma revista pornográfica da Gina que é um espectáculo. Diz que não é dele e que o advogado tem mais de mil "Ginas"e algumas ainda têm as páginas coladas do tempo em que se masturbava para cima das gajas nuas.Tatiana fala aos berros e não posso revelar pormenores, mas decidi suspender a escrita do Baco durante uns minutos porque ela fala do coveiro que anda metido em controlador de horários e como não posso com a morte nem entro em cemitérios desde o óbito da santa minha querida mãe.... esqueço a história do coveiro. Como não conheço praticamente ninguém em Estremoz, Herminia esforça-se em me explicar quem são as miudas que dormem fora de casa com homens mal casados e sempre me pareceu que o pior exercício da crítica acontece nos reformados de baixa escolaridade. Os críticos como a Tatiana não chegam sequer á lábia dos advogados frustrados. Ela pura e simplesmente não sabe da vida. É claro que a vida da Tatiana é reduzida porque os emigrantes conhecem pouca gente, tal como eu, mas Herminia parece viver dentro da casa das pessoas mais conhecidas da cidade. Até a redaccção de A Bola deve ter menos histórias rocambolescas.
Aproveitarei também para mudar o último terço, que estava em cima da cama. A visita do Papa excita-me , mas tive que mandar calar a Herminia, quando tirou a camisa e roliça, bamboleia as mamas para exemplificar a história do gajo/governante que consegue ser eremita mesmo quando rodeado de pessoas por todos os lados, coisa que admiramos.
Aproveitarei também para mudar o último terço, que estava em cima da cama. A visita do Papa excita-me , mas tive que mandar calar a Herminia, quando tirou a camisa e roliça, bamboleia as mamas para exemplificar a história do gajo/governante que consegue ser eremita mesmo quando rodeado de pessoas por todos os lados, coisa que admiramos.
terça-feira, 20 de abril de 2010
Crónica do Baco 26
Por um triz não fiquei agarrado a uma fila de aeroporto. Cheguei. Depois de tanto tempo em Estremoz, sair no espaço de 2 meses, fez-me bem. Primeiro ao Brasil. Agora a Suiça. Hoje inicio uma colaboração com o diz que disse, que deve ser entendida como uma contratação sem fins lucrativos por acordo de ambas as partes entre mim, a Tatiana, a Hermínia, o Inventor e o seu moço de recados. Escreverei notícias sobre o interior, a desertificação, os estranhos sotaques que ainda vão sobrevivendo a anos de actividade parlamentar na capital, concursos de literatura promovidos por autarquias, crimes de enxada, a gente gira dos bairros pobres de estremoz alentejana, ornitologia, caça e pesca, prostíbulos raianos, cromos sem bola, imprensa local, comunidades estrangeiras e música popular. Começo por onde? pergunta-me o inventor. Ao fim de 20 minutos mandei-o parar. Nunca tinha ouvido tanta merda junta.
domingo, 11 de abril de 2010
Crónica do Baco 25
Estou há 14 dias sem me olhar ao espelho. A vida no Brasil tem estas vantagens, não precisamos gostar de nós para que os outros gostem. Voltei hoje á calma de Estremoz sem olhar para o espelho. O encontro acidental com o reflexo da minha imagem na montra da Lavandaria Rosado não conta. Vou esquecendo a cara que tenho e principalmente a que tive para dormir 12 noites com Gina uma baiana do outro mundo. A higiene facial é feita às escuras. Mas creio que nunca tive um ar tão asseado. Em Estremoz faço a barba todos os dias. Arranco com os dedos os pêlos mais compridos das sobrancelhas. A solidão potencia a excentricidade.
Ando há meses nisto. Vou e volto. Da capital para a provincia, mas as razões para morar em Estremoz estão-se a esgotar. Os governantes são uma caca. Poderia abrir um clássico da literatura, mas opto por estes jogos absurdos. Assim vou suportando a solidão. Ao incipiente transtorno de obsessivo-compulsivo que é voltar repetidas vezes a casa, quando já me encontro na rua, para confirmar que fechei o gás, junto comportamentos menos espontâneos e mais criativos, como descer as ruas em slalom lento pelas laranjeiras, pintar os "ós" de todos os editoriais do Ecos e do Brados a esferográfica azul, descascar uma pevide enquanto espero pelo evento cultural do próximo mês (abro um parentsis para dizer que conheci o avozinho que toma conta desse cadinho e estou desesperado) e depois tento encontrar uma sequência de beirais em que o número de ninhos-de-andorinha forme a série de Fibonacci.
O que há de absolutamente assustador nestas práticas reiteradas é a sua eficácia imediata. O momento em si parece que se eterniza, não como se o tempo pesasse, antes como o tempo deixasse de existir. Por isso, nunca me senti tão aborrecido em Estremoz. Mas parece que este efeito se concretiza às custas de a lembrança do passado se comprimir tanto que agora julgo ter chegado a Estremoz há mais dum século. Por isso, tenho deixado de me sentir em paz. Começo mesmo a precisar de reler o que aqui vou escrevendo para ter mão no passado. Os dedos para ver o rosto e os olhos para tactear o tempo. Volto do Brasil e toda a gente me fala do carro novo do presidente. Foda-se quero lá saber dessas minudências. E Tatiana? Diz que não dorme comigo enquanto eu cheirar a preta. Chiça.
Ando há meses nisto. Vou e volto. Da capital para a provincia, mas as razões para morar em Estremoz estão-se a esgotar. Os governantes são uma caca. Poderia abrir um clássico da literatura, mas opto por estes jogos absurdos. Assim vou suportando a solidão. Ao incipiente transtorno de obsessivo-compulsivo que é voltar repetidas vezes a casa, quando já me encontro na rua, para confirmar que fechei o gás, junto comportamentos menos espontâneos e mais criativos, como descer as ruas em slalom lento pelas laranjeiras, pintar os "ós" de todos os editoriais do Ecos e do Brados a esferográfica azul, descascar uma pevide enquanto espero pelo evento cultural do próximo mês (abro um parentsis para dizer que conheci o avozinho que toma conta desse cadinho e estou desesperado) e depois tento encontrar uma sequência de beirais em que o número de ninhos-de-andorinha forme a série de Fibonacci.
O que há de absolutamente assustador nestas práticas reiteradas é a sua eficácia imediata. O momento em si parece que se eterniza, não como se o tempo pesasse, antes como o tempo deixasse de existir. Por isso, nunca me senti tão aborrecido em Estremoz. Mas parece que este efeito se concretiza às custas de a lembrança do passado se comprimir tanto que agora julgo ter chegado a Estremoz há mais dum século. Por isso, tenho deixado de me sentir em paz. Começo mesmo a precisar de reler o que aqui vou escrevendo para ter mão no passado. Os dedos para ver o rosto e os olhos para tactear o tempo. Volto do Brasil e toda a gente me fala do carro novo do presidente. Foda-se quero lá saber dessas minudências. E Tatiana? Diz que não dorme comigo enquanto eu cheirar a preta. Chiça.
domingo, 28 de março de 2010
Crónica do Baco 24
Há pessoas que cumprimentamos sempre e pessoas que nunca cumprimentamos. Trivial. Mas há também pessoas que cumprimentamos ou não em função do contexto. Reconhecê-lo não é uma admissão de hipocrisia ou de cobardia. Evitar certas pessoas em certos contextos pode ser um acto de altruísmo (quando não se quer complicar a vida do outro) ou de modéstia (quando se pensa que o outro não se lembra de nós), ainda que sempre assente num infundado optimismo (por implicar pensar que ninguém nos viu). Estas são situações exclusivas das grandes metrópoles e impensáveis em Estremoz. Não que falte por aqui a complexidade arquitectónica e vivencial para gerar tais contextos - raios, temos cafés e esquinas. O que distingue Estremoz é a pequenez da sua teia social. Aqui ninguém se pode dar ao luxo de decidir um cumprimento em função do momento, sob pena de transmitir uma vibração que se propagaria por toda a parte e chegaria a todos, inclusive à menina da revista porno.
Na quinta feira pretérita levaram-me a ver um certame interessante e inédito, nas palavras de Mariano o meu companheiro, que em tempos caçou com o tio e com o pai na herdade perto de Monforte, eu teria que falar a toda a gente. Na Festa das Escolas, uma coisa deprimente e vadia por onde circulam e ululam crianças malcriadas e barulhentas, eu não conheci ninguém e passei incólume no inexistente protocolo, porque ninguém me conhece, porra como quer voçê que eu fale a toda a gente, se ninguém me conhece, vociferei eu com Mariano....
Quase todas as grandes ideias que fizeram a cultura e a educação foram geradas por pessoas com mais de 40 anos. Foda-se como podem meter crianças a tomar conta de si mesmo numa enormidade de espaço. Não vou fazer as contas, é uma conclusão a que chego pela conjugação de uma série de informações díspares que o Mariano me deu. Só assim se explica que ninguém ainda tenha proposto a seguinte explicação para a invenção do fogo ou, para ser mais rigoroso, para o domínio do fogo pelo homem: o fogo foi criado para vencer a desorganização. Mais valia ter ardido tudo!
Na quinta feira pretérita levaram-me a ver um certame interessante e inédito, nas palavras de Mariano o meu companheiro, que em tempos caçou com o tio e com o pai na herdade perto de Monforte, eu teria que falar a toda a gente. Na Festa das Escolas, uma coisa deprimente e vadia por onde circulam e ululam crianças malcriadas e barulhentas, eu não conheci ninguém e passei incólume no inexistente protocolo, porque ninguém me conhece, porra como quer voçê que eu fale a toda a gente, se ninguém me conhece, vociferei eu com Mariano....
Quase todas as grandes ideias que fizeram a cultura e a educação foram geradas por pessoas com mais de 40 anos. Foda-se como podem meter crianças a tomar conta de si mesmo numa enormidade de espaço. Não vou fazer as contas, é uma conclusão a que chego pela conjugação de uma série de informações díspares que o Mariano me deu. Só assim se explica que ninguém ainda tenha proposto a seguinte explicação para a invenção do fogo ou, para ser mais rigoroso, para o domínio do fogo pelo homem: o fogo foi criado para vencer a desorganização. Mais valia ter ardido tudo!
sábado, 20 de março de 2010
Crónica do Baco 23
Pela segunda vez desde que estou em Estremoz, voltei conduzir e pensei fazer esta viagem com umas sete ou oito pessoas diferentes. É mania que dura há anos, talvez desde o Thelma & Louise. A primeira vez que peguei no carro tive uma má experiência porque coincidiu com um inarrável momento de filas de trânsito na cercania do centro de saúde local e jurei para nunca mais. Mais tarde Tatiana explicou-me que as mamãs da cidade têm a impressão que é fino levar os reguilas ao liceu e que congestionam o trânsito três vezes ao dia. Pedi á Herminia que me dissesse a que horas podia sair, se bem que não tenha vontade de voltar a pé ou de carro aquele inferno de latas rodantes que me fez recordar a minha cidade nas horas de ponta.
De modo que a minha segunda aventura rodoviária asemelhava-se assim ao filme em que a parceira foi Geena Davis, só que a moça depois cresceu um bocadinho demais e para todos os lados, como se um soprador de vidro a tivesse insuflado pelo umbigo. A Herminia disse logo que eu parecia o presidente da junta dela que foi para a autarquia e não para de engordar. Logo a troquei pelos meus amigos. Não suporto esta mulher . S., T., H., acompanharam-me até ao carro mas depois de iniciar nas primeiras manobras olhei para os bancos de trás e.... Ninguém. É difícil sincronizar o desejo e poupem-me ao exemplo do orgasmo simultâneo, esse truque fácil para o reforço da empatia. Sobrei eu e o carro. Fui passeá-lo ontem de madrugada. Fiz a volta do Rocio com o vidro aberto, gozando no rosto a aceleração aparente desta atmosfera quente e estagnada. As superfícies metálicas, como os corpos suados, gozam da propriedade ambígua que é rechaçar a luz deixando marca. São reflexos com direito de autor. Relembro-o por causa dos anúncios da politica que mal deixam ver o cruzamento seguinte que não estão em bom lugar. Fizeram-me lembrar o cartaz gigantesco da Coca-cola em letras encarnadas de néon do outro lado do rio, na fronteira entre Queens e Brooklyn, que não passa cartão aos táxis amarelos nem às arestas da carroçaria da minha viatura, mesmo se o East River - não sendo um rio - é caudaloso e em tempos quase afogou um surfista australiano (factual).
A cidade de Estremoz muda quando se guia, o que ontem aconteceu pela segunda vez em 5 anos. Na primeira, andei por aí com uma carrinha de mudanças desconjuntada que fui buscar ao Harlem. Agora foi de Renault Megane. Dá ares de sonho americano, só que é tudo uma ilusão, como ilusório parece ser arrumar o carro na zona industrial, uma zona da cidade que só atrai mosquitos e ratos durante a noite mas que deve ter moradores em número suficiente para saturar os lugares de estacionamento durante o dia (penso eu). Ignoro se a regra de ter de mudar o carro de sítio todos os dias ou ao segundo dia ainda existe, mas às duas da madrugada as ruas estavam vazias e não havia movimento nenhum. Voltei a casa sem sair do carro. Enfim, serviu o passeio para me acostumar ao bicho, tomar-lhe as medidas. Ganhei o golpe de vista necessário e experimentei no fim um certo orgulho por não o ter riscado o meu Renault presidencial, sobretudo porque me cruzei com vários jovens das freguesias rurais, aos quais obviamente não liguei. Quem conduz um carro destes e ainda por cima pela segunda vez na cidade de Estremoz, não pode tirar os olhos do painel de instrumentos. Já em casa, não resisti a descer à rua uma última vez, sob pretexto de verificar se havia recolhido o espelho reflector. O que queria era sentir a máquina mais uma vez. Coloquei as mãos perto motor, senti um vestígio de trepidação e a chapa morna. O bicho parecia um mamífero de verdade.
De modo que a minha segunda aventura rodoviária asemelhava-se assim ao filme em que a parceira foi Geena Davis, só que a moça depois cresceu um bocadinho demais e para todos os lados, como se um soprador de vidro a tivesse insuflado pelo umbigo. A Herminia disse logo que eu parecia o presidente da junta dela que foi para a autarquia e não para de engordar. Logo a troquei pelos meus amigos. Não suporto esta mulher . S., T., H., acompanharam-me até ao carro mas depois de iniciar nas primeiras manobras olhei para os bancos de trás e.... Ninguém. É difícil sincronizar o desejo e poupem-me ao exemplo do orgasmo simultâneo, esse truque fácil para o reforço da empatia. Sobrei eu e o carro. Fui passeá-lo ontem de madrugada. Fiz a volta do Rocio com o vidro aberto, gozando no rosto a aceleração aparente desta atmosfera quente e estagnada. As superfícies metálicas, como os corpos suados, gozam da propriedade ambígua que é rechaçar a luz deixando marca. São reflexos com direito de autor. Relembro-o por causa dos anúncios da politica que mal deixam ver o cruzamento seguinte que não estão em bom lugar. Fizeram-me lembrar o cartaz gigantesco da Coca-cola em letras encarnadas de néon do outro lado do rio, na fronteira entre Queens e Brooklyn, que não passa cartão aos táxis amarelos nem às arestas da carroçaria da minha viatura, mesmo se o East River - não sendo um rio - é caudaloso e em tempos quase afogou um surfista australiano (factual).
A cidade de Estremoz muda quando se guia, o que ontem aconteceu pela segunda vez em 5 anos. Na primeira, andei por aí com uma carrinha de mudanças desconjuntada que fui buscar ao Harlem. Agora foi de Renault Megane. Dá ares de sonho americano, só que é tudo uma ilusão, como ilusório parece ser arrumar o carro na zona industrial, uma zona da cidade que só atrai mosquitos e ratos durante a noite mas que deve ter moradores em número suficiente para saturar os lugares de estacionamento durante o dia (penso eu). Ignoro se a regra de ter de mudar o carro de sítio todos os dias ou ao segundo dia ainda existe, mas às duas da madrugada as ruas estavam vazias e não havia movimento nenhum. Voltei a casa sem sair do carro. Enfim, serviu o passeio para me acostumar ao bicho, tomar-lhe as medidas. Ganhei o golpe de vista necessário e experimentei no fim um certo orgulho por não o ter riscado o meu Renault presidencial, sobretudo porque me cruzei com vários jovens das freguesias rurais, aos quais obviamente não liguei. Quem conduz um carro destes e ainda por cima pela segunda vez na cidade de Estremoz, não pode tirar os olhos do painel de instrumentos. Já em casa, não resisti a descer à rua uma última vez, sob pretexto de verificar se havia recolhido o espelho reflector. O que queria era sentir a máquina mais uma vez. Coloquei as mãos perto motor, senti um vestígio de trepidação e a chapa morna. O bicho parecia um mamífero de verdade.
domingo, 14 de março de 2010
Crónica do Baco 22
O que faz mesmo falta aqui é uma rede de transportes públicos. Mas Estremoz é uma cidade órfã de cultura o que me entristece. Se ter um excêntrico à frente dos destinos de um país seria trágico, o desaparecimento dos autarcas excêntricos será empobrecedor. As iniciativas culturais também se fazem à custa das idiossincrasias dos localmente poderosos mas aqui é o tédio completo. Aliás, com tantas normas, directivas não admira que o teatro local tenha fechado. Foi das formigas diz a Hermínia que parece saber tudo, mas eu sei que o monopólio da telha e do cimento conduz ao aumento de um nível de cultura que só os matarroanos conhecem. A vida em Estremoz que concomitantemente normaliza os anseios dos locais só é possivel porque alguns tendem para a homogeneidade e serão daqui a 10 anos manchas isoladas ....
Resta a promoção de novas especificidades regionais. Ora, a melhor fonte de diversidade ainda é a cabeça dos indivíduos. Daí a necessidade de dar poder aos mandantes. Um poder absoluto, centralizado num único indivíduo e sem conselho, comissão ou oposição que lhe seque a veia criativa. Sim, agora que deixei de votar e não me sinto com grandes obrigações de cidadania, posso confessar que gostaria de ter em Estremoz um tiranete com ideias megalómanas. Talvez seja essa a única forma de se construir aqui uma linha de metropolitano com duas únicas paragens: chegada e partida de Badajoz, junto á Calle del Burro. É que de todos os rostos anónimos que fui observando na passagem de modelos de ontem á noite, só tenho mesmo saudades de alguns rostos vistos nos transportes públicos de Lisboa. Não é a lei dos grandes números que explica esta impressão. Há uma qualidade específica dos rostos nos transportes públicos que não encontramos em mais nenhum lugar ou circunstância. É só isso que falta a Estremoz, para ser uma aldeia interessante.
Resta a promoção de novas especificidades regionais. Ora, a melhor fonte de diversidade ainda é a cabeça dos indivíduos. Daí a necessidade de dar poder aos mandantes. Um poder absoluto, centralizado num único indivíduo e sem conselho, comissão ou oposição que lhe seque a veia criativa. Sim, agora que deixei de votar e não me sinto com grandes obrigações de cidadania, posso confessar que gostaria de ter em Estremoz um tiranete com ideias megalómanas. Talvez seja essa a única forma de se construir aqui uma linha de metropolitano com duas únicas paragens: chegada e partida de Badajoz, junto á Calle del Burro. É que de todos os rostos anónimos que fui observando na passagem de modelos de ontem á noite, só tenho mesmo saudades de alguns rostos vistos nos transportes públicos de Lisboa. Não é a lei dos grandes números que explica esta impressão. Há uma qualidade específica dos rostos nos transportes públicos que não encontramos em mais nenhum lugar ou circunstância. É só isso que falta a Estremoz, para ser uma aldeia interessante.
sábado, 6 de março de 2010
Crónica do Baco 21
Há uns dias, um novo jantar em casa do inventor trouxe mais uma surpresa desde que estou em Estremoz: Parece que existe uma rádio local! A Hermínia bem que me azucrinava os neurónios com a historieta dos discos pedidos. Esta coincidência não é de espantar numa terra com tão poucos habitantes, mas deixou-me atrapalhado, inclusive antes da companheira do inventor me ter tocado com o pé descalço, debaixo da mesa, para que não fizesse mais perguntas sobre a rádio. Foda-se não sabia que o tema era tabu mas o pormenor do toque do pé descalço lembrou-me uma cena de uma pornochanchada reprimida em que Arielle Dombasle, neste caso sobre a mesa mas também com a consequência de ter excitado uma dos convivas, grava o relevo do seu mamilo desperto num pacotinho de manteiga. Na verdade, a associação é pouco rigorosa, porque feita antes de ter respondido à questão que de imediato surgiu: houve ali intenção ou casualidade? Tratou-se de uma daquelas situações em que o Lucílio Baptista que existe dentro de nós mais prontamente se manifesta. O jantar decorreu sem mais incidentes, mas depois o inventor ausentou-se com Tatiana e eu fiquei a sós com ela.Confesso que foi uma surpresa. Não resisti a esperar pela hora de saída de Tatiana e a primeira coisa que ela fez foi acender um cigarro. Tem um jeito fabril de fumar, a fazer lembrar o das empregadas da minha velha cantina. Tem também um jeito refinado de segurar o cigarro entre os dedos e é civilizada: deitou a beata num caixote do lixo, depois de se certificar que estava bem apagada (segui-a durante uns minutos, à distância).
Um homem de bom gosto só pode gostar de ver uma mulher fumar, mas um homem de bom gosto não pode suportar que uma mulher fume. É este o problema. Não se trata de uma preocupação com a saúde da mulher mas sim de um conflito entre gostar de ver e não gostar de sentir. Coisas demasiado subtis para as ondas hertzianas. Tal como Tatiana, a gaja, a minha interlocutora da pérfita noite, junto á muralha, fuma. Quem diria?
Um homem de bom gosto só pode gostar de ver uma mulher fumar, mas um homem de bom gosto não pode suportar que uma mulher fume. É este o problema. Não se trata de uma preocupação com a saúde da mulher mas sim de um conflito entre gostar de ver e não gostar de sentir. Coisas demasiado subtis para as ondas hertzianas. Tal como Tatiana, a gaja, a minha interlocutora da pérfita noite, junto á muralha, fuma. Quem diria?
terça-feira, 2 de março de 2010
Crónica do Baco 20
Há dias que não vejo Tatiana e não toma forma a escultura nua que estou a fazer. O que temos, feitas as contas, é um nariz. Como explicar esta falta de empreendedorismo? Não excluindo que se trate de preguiça, creio que há duas pressões para adiar a materialização de Tatiana. A primeira: a chuva abundante que cai em Estremoz é um modo de evitar um compromisso. Se cai muita , não falta água logo não tenho compromissos. A segunda: é a única forma de não contaminar Tatiana com imagens do passado pouco neutras. De algum modo, esta segunda pressão acentuou-se em Estremoz. É verdade que uns meses de isolamento bastam para se regressar a um estado livre de qualquer paixão, mas a vivência na vila é também muito pobre nos estímulos quotidianos que teriam ajudado a reconstruir a matéria-prima de imagens necessária para compor Tatiana e um novo imaginário erótico. A ideia de que no interior do país se encontram belas moças de fartos seios à janela é uma falsidade alimentada pelos estereótipos das fantasias sexuais sulistas (a loira espojada sobre fardos de palha, receptiva e expectante) e esmagada por uma pirâmide etária que há muito se inverteu. É só magricelas, macilentas de cabelo gorduroso. Nem mesmo a minha gatinha Tânia que por aqui passou há uns meses me excita, e foi provavelmente uma alucinação. Perante este quadro, ainda há umas fugas do passado, que se insinuam quando menos esperava ou então quando seria inevitável. Estes episódios rareiam como rareiam os advogados e procuro recorrer a tais imagens segundo um sistema de rotatividade que impede qualquer primazia. Ainda assim, Tatiana não precisa de ficar com marcas no corpo destes vícios esporádicos. Frankenstein, por mais monstruoso que fosse, usou cadáveres anónimos para a sua composição. Daí a importância dos estímulos ocasionais, tão raros em Estremoz. Sobra o mercado local claro, mas isso seria construir Tatiana a partir de materiais pré-fabricados. Uma coisa deprimente, terceiromundista, com barracas, velhas desbocadas e ratazanas pestilentas. É preciso paciência. O nariz já está, o resto aparecerá um dia, com a simplicidade do escultor que apenas disse ter tirado do bloco de mármore tudo o que estava a mais.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Crónica do Baco 19
Foi na qualidade de recruta que João Algoz se iniciou na pornografia. Porque o desejo antecedeu em dois meses a competência para a masturbação, a data precisa depende do critério que se considere relevante, mas na primeira e na segunda vez foi usada a mesma revista, o mesmo número e até o mesmo exemplar. Como sempre acontece nos colégios, um colega empreendedor dominava o mercado negro da distribuição do material pornográfico. Este rapaz cedo percebeu que o verdadeiro negócio estava no aluguer, mas optou por não plastificar o seu espólio, pois o papel autocolante transparente era caro e aplicá-lo sem deixar bolhas de ar uma tarefa difícil para quem tivera negativa na disciplina de trabalhos manuais. A sua solução foi penalizar quem não devolvesse a revista como a recebeu; de início a penalização foi pecuniária, mas a dado momento passou a ser uma interdição de novos alugueres durante um mês, fórmula que vingou. Foi assim que Algoz desde o início adquiriu hábitos de higiene pouco rigorosos, detestava primeiro o papel higiénico e só quando começou a sujar a roupa interior é que se iniciou nos gardanapos descartáveis (que roubava na bar da escola), que têm uma folha mais absorvente e o tamanho certo.
Nunca ninguém lhe conheceu qualquer namorada mas ele em pensamento namorou imensas, o que acentuou o consumo de pornografia. Livre das restrições do colégio, Algoz havia aderido com entusiasmo à filmografia centro-europeia, que consumia em vídeo, depois de uma experiência desagradável numa sala de cinema. Começou aí o namoro com as máquinas.
João Algoz nunca perdeu a virgindade e o vício da pornografia acentuou-se. Por comparação, o sexo verdadeiro parecia-lhe mais virtual, inclusive quando acabava de se masturbar. Na pornografia, Algoz experimentava sempre uma ressaca de culpa, que atribuía à recruta e à disciplina politica. Quando olhava para as mulheres essa sensação de ressaca aparecia sempre e dera lugar a uma satisfação muito próxima da felicidade, sobretudo ao sábado de manhã, se o céu estava limpo, o esquentador não falhava e os pais não estavam em casa. Era um prazer tão intenso e compensador de calças desapertadas no sofá da sala, diante do televisor, e as revistas espalhadas pelo chão com as gajas todas nuas.
Uma das suas namoradas (em pensamento) acabaria por sair de casa para ir viver com o namorado verdadeiro. Algoz não aceitou bem a separação e depois de umas aventuras inconsequentes acabou por voltar a acentuar o vício da pornografia. De início, recuperou as velhas rotinas e na aparência lembrava um adolescente. Mas se a pornografia começa por ser uma cábula da imaginação, tende a transformar-se num antídoto da memória. Assim foi. Algoz procurava expulsar as imagens eróticas que a sua ex-namorada lhe deixara e o mobilizavam insistentemente. Daí a escalada que começou na contemplação da rotina onanista de uma mulher asseada, ao fim de algumas semanas já envolvia uma loira oxigenada numa estrebaria e por fim envolvia a cadela da vizinha, aliás vistoso exemplar canino de pelo branco e luzidio.
A solidão de Algoz chegou devagar. No início, virou-se para as máquinas (computadores, fotografia, etc) e assim se passaram muitos anos, em que o natural acumular de tensão sexual foi sendo dissipado pela progressão da patetice, num equilíbrio dinâmico. Até ao dia em que Algoz deu com uma publicidade a um detergente de máquina, misturada com uma récita sindical.
A alteração do papel desempenhado pelo homem no lar levara a mudanças na publicidade. De exclusivo dos anúncios das cervejeiras e das marcas de carros, a publicidade com figuras femininas carregadas de sexualidade extravasou para outros mercados, como o dos detergentes de roupa e amaciadores, que antes tinham por público-alvo donas de casa, tias e avós. Mas Algoz era de outro mundo e o confronto com a modelo peituda espojada sobre uma pilha de toalhas turcas veio com um misto de surpresa e excitação, num contexto redentor, pois nem um mamilo se topava. Gozar o sorriso maternal da modelo na garrafa de amaciador passou a ser o momento alto das manhãs de Algoz. Depois também das tardes. E das noites. Algoz reencontrava um fulgor sexual e, pela primeira vez, não se sentia culpado, nem a montante, nem a jusante. Esta liberdade de consciência conduziu-o à obsessão, embora seja impossível estabelecer, com rigor médico, se Algoz efectivamente se masturbará até à morte á conta da gaja da garrafa de amaciador.
Nunca ninguém lhe conheceu qualquer namorada mas ele em pensamento namorou imensas, o que acentuou o consumo de pornografia. Livre das restrições do colégio, Algoz havia aderido com entusiasmo à filmografia centro-europeia, que consumia em vídeo, depois de uma experiência desagradável numa sala de cinema. Começou aí o namoro com as máquinas.
João Algoz nunca perdeu a virgindade e o vício da pornografia acentuou-se. Por comparação, o sexo verdadeiro parecia-lhe mais virtual, inclusive quando acabava de se masturbar. Na pornografia, Algoz experimentava sempre uma ressaca de culpa, que atribuía à recruta e à disciplina politica. Quando olhava para as mulheres essa sensação de ressaca aparecia sempre e dera lugar a uma satisfação muito próxima da felicidade, sobretudo ao sábado de manhã, se o céu estava limpo, o esquentador não falhava e os pais não estavam em casa. Era um prazer tão intenso e compensador de calças desapertadas no sofá da sala, diante do televisor, e as revistas espalhadas pelo chão com as gajas todas nuas.
Uma das suas namoradas (em pensamento) acabaria por sair de casa para ir viver com o namorado verdadeiro. Algoz não aceitou bem a separação e depois de umas aventuras inconsequentes acabou por voltar a acentuar o vício da pornografia. De início, recuperou as velhas rotinas e na aparência lembrava um adolescente. Mas se a pornografia começa por ser uma cábula da imaginação, tende a transformar-se num antídoto da memória. Assim foi. Algoz procurava expulsar as imagens eróticas que a sua ex-namorada lhe deixara e o mobilizavam insistentemente. Daí a escalada que começou na contemplação da rotina onanista de uma mulher asseada, ao fim de algumas semanas já envolvia uma loira oxigenada numa estrebaria e por fim envolvia a cadela da vizinha, aliás vistoso exemplar canino de pelo branco e luzidio.
A solidão de Algoz chegou devagar. No início, virou-se para as máquinas (computadores, fotografia, etc) e assim se passaram muitos anos, em que o natural acumular de tensão sexual foi sendo dissipado pela progressão da patetice, num equilíbrio dinâmico. Até ao dia em que Algoz deu com uma publicidade a um detergente de máquina, misturada com uma récita sindical.
A alteração do papel desempenhado pelo homem no lar levara a mudanças na publicidade. De exclusivo dos anúncios das cervejeiras e das marcas de carros, a publicidade com figuras femininas carregadas de sexualidade extravasou para outros mercados, como o dos detergentes de roupa e amaciadores, que antes tinham por público-alvo donas de casa, tias e avós. Mas Algoz era de outro mundo e o confronto com a modelo peituda espojada sobre uma pilha de toalhas turcas veio com um misto de surpresa e excitação, num contexto redentor, pois nem um mamilo se topava. Gozar o sorriso maternal da modelo na garrafa de amaciador passou a ser o momento alto das manhãs de Algoz. Depois também das tardes. E das noites. Algoz reencontrava um fulgor sexual e, pela primeira vez, não se sentia culpado, nem a montante, nem a jusante. Esta liberdade de consciência conduziu-o à obsessão, embora seja impossível estabelecer, com rigor médico, se Algoz efectivamente se masturbará até à morte á conta da gaja da garrafa de amaciador.
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Crónica do Baco 18
O lisboeta imagina uma cidade como um ponto homogéneo no espaço. Aplicar a noção de subúrbio às pequenas povoações parece-lhe uma excentricidade. Mas há uma dimensão fractal em todos os aglomerados populacionais, que faz com que uma pequena aldeia seja, na planta das ruas, a miniatura de uma cidade. De outro modo: com a diminuição de tamanho, os elementos do espaço preservam-se bem melhor do que a composição dos habitantes; a mais modesta aldeia terá sempre um centro e uma periferia como o Rocio de Estremoz, mas até as vilas com ambições a ser cidade têm livrarias de banda desenhada. Tenho sentido falta duma em Estremoz. Herdei a minha casa num dos sitios mais bonitos de Estremoz. Gosto de ver o castelo daqui e espreitar o Rocio cheio de carros, daqui a uns meses, deixo o meu quarto do lado norte e mudo para o do lado onde vejo a fila de laranjeiras já floridas. O menino vai ver que aquele é mais quentinho diz-me a Hermínia sempre preocupada com o meu bem estar, mas eu estou desconfiado que quer é ter acesso á janela que dá para o Rocio. Foi dali que ouvi esta conversa:
-Já assinou a petição?
- Qual a de abrir o teatro?
- Não caralho, a de fechar as piscinas
- Eu conheço-te?
- Estou a fazer um abaixo assinado para amanharem a estrada da minha aldeia.
- Desaparece ou ainda te magoas.
- Não quer assinar a petição?
- A do Estremoz Marca?
- Bem, de certa forma.
- De certa forma o quê? Eu tenho a minha liberdade e tu a tua. Onde é que vives, pá?
- Aquilo da boneca em sangue termina onde começa o teu nariz?
- Não. Aquilo quer dizer que vem muito dinheiro.
- Ah isso é uma bugiganga luminosa de paquistanês?
- Não, palhaço. Chama-se projecto ....
- Mete-te na tua vida.
- E a petição?
- Desculpa?
- A petição.
- Meu, vai-te foder...
- Mas não quer assinar.
- Olha para aqui. A minha mão. Estás a ver?
- Não estou a perceber.
- Aqui, pá. Estás a ver, hã? Estás?
- Sim, as cinco quinas tatuadas. Já passei muito na prisão, não tenho medo dos gajos.
- Estes gajos ainda são piores que os outros.
- Chega. Assinas ou não?
- Nem penses. E nem quero saber quem são os bufos.
- Desaparece senão...
- Se não, o quê? Chamas o padrinho, é?
- Chamo.
- Meu, tu vais ficar caladinho. Ouviste?
- Isto não fica assim.
- Fica, pá. Fica assim. E bico calado. Tenho-te marcado. Vocês têm é muito tempo livre, caralhos os fodam.
-Já assinou a petição?
- Qual a de abrir o teatro?
- Não caralho, a de fechar as piscinas
- Eu conheço-te?
- Estou a fazer um abaixo assinado para amanharem a estrada da minha aldeia.
- Desaparece ou ainda te magoas.
- Não quer assinar a petição?
- A do Estremoz Marca?
- Bem, de certa forma.
- De certa forma o quê? Eu tenho a minha liberdade e tu a tua. Onde é que vives, pá?
- Aquilo da boneca em sangue termina onde começa o teu nariz?
- Não. Aquilo quer dizer que vem muito dinheiro.
- Ah isso é uma bugiganga luminosa de paquistanês?
- Não, palhaço. Chama-se projecto ....
- Mete-te na tua vida.
- E a petição?
- Desculpa?
- A petição.
- Meu, vai-te foder...
- Mas não quer assinar.
- Olha para aqui. A minha mão. Estás a ver?
- Não estou a perceber.
- Aqui, pá. Estás a ver, hã? Estás?
- Sim, as cinco quinas tatuadas. Já passei muito na prisão, não tenho medo dos gajos.
- Estes gajos ainda são piores que os outros.
- Chega. Assinas ou não?
- Nem penses. E nem quero saber quem são os bufos.
- Desaparece senão...
- Se não, o quê? Chamas o padrinho, é?
- Chamo.
- Meu, tu vais ficar caladinho. Ouviste?
- Isto não fica assim.
- Fica, pá. Fica assim. E bico calado. Tenho-te marcado. Vocês têm é muito tempo livre, caralhos os fodam.
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
Crónica do Baco 17
Antes de me mudar para Estremoz, gostava de cultivar crisântemos, gardénias e tulipas em vasinhos de plástico, mas a Herminia avisou-me logo que isso era coisa de maricas, depois ainda tentei mais duas vezes mas Tatiana numa das aventuras pelo meu quarto perguntou-me com voz de Lou Reed se as rosinhas eram minhas e disse-lhe que não, não eram minhas porque isso é coisa de gajas. Plantar tulipas e bolbos e palmilhar as ruas armado em matrafona de Carnaval são dois géneros intrinsecamente errados. Quando mostrei as plantas ao meu único amigo intelectual, ele disse-me que eram "péssimas" e que a poda - na altura empregámos o termo "aforismo" - é um registo muito difícil, só ao alcance dos grandes agricultores principalmente se tiveram experiência de qualquer cargo político. Sobre o Carnaval a crítica foi dura, ainda que vaga. O meu problema com o carnaval é outro, talvez por não ser um intelectual. Para mim, mostrar as fraquezas transformado em baiana ou sopeira como a minha Hermínia é o cúmulo da exposição das miudezas. É mais cruel do que a autobiografia do Vincent Van Gogh e se alguns o fazem por vício, talvez não tenham a noção do ridículo.
Na quinta feira antes de voltarmos a S. Domingos de Rana senti a suspeita que pouca gente da minha rua gosta desta bizarria do carnaval, e até compreendiam porque deixava a terra nestes dias, mas ontem confirmei tudo em casa do inventor. O menino nem dos casamentos das noivas de santo andré gostava quanto mais disto...
Depois do jantar o meu anfitrião, professor aposentado, ausentou-se de repente, como costuma fazer, e fiquei a bisbilhotar a sua biblioteca. Descobri então um volume delgado: La Cuisine Cannibale, de Roland Topor. Trata-se de uma série de textos que começam por ser chocantes, depois desconcertantes, depois divertidos, a seguir previsíveis e por fim profundamente aborrecidos. Topor teve uma boa ideia: imaginar receitas de culinária em que os ingredientes são seres humanos. Foda-se sabia lá que o professor se interessa por estas merdas.
Bisbilhotei outro volume e escolhi o da capinha amarela. Depois de lida a introdução do tradutor Richard Freeborn, no momento em que inicio a leitura de "Fathers and Sons" o meu celular acusa uma ligeira tremura indicando que Tatiana me quer ouvir falar, desligo ao segundo impulso no momento em que ela me informa que está a chover em Estremoz. Que se foda!
Na quinta feira antes de voltarmos a S. Domingos de Rana senti a suspeita que pouca gente da minha rua gosta desta bizarria do carnaval, e até compreendiam porque deixava a terra nestes dias, mas ontem confirmei tudo em casa do inventor. O menino nem dos casamentos das noivas de santo andré gostava quanto mais disto...
Depois do jantar o meu anfitrião, professor aposentado, ausentou-se de repente, como costuma fazer, e fiquei a bisbilhotar a sua biblioteca. Descobri então um volume delgado: La Cuisine Cannibale, de Roland Topor. Trata-se de uma série de textos que começam por ser chocantes, depois desconcertantes, depois divertidos, a seguir previsíveis e por fim profundamente aborrecidos. Topor teve uma boa ideia: imaginar receitas de culinária em que os ingredientes são seres humanos. Foda-se sabia lá que o professor se interessa por estas merdas.
Bisbilhotei outro volume e escolhi o da capinha amarela. Depois de lida a introdução do tradutor Richard Freeborn, no momento em que inicio a leitura de "Fathers and Sons" o meu celular acusa uma ligeira tremura indicando que Tatiana me quer ouvir falar, desligo ao segundo impulso no momento em que ela me informa que está a chover em Estremoz. Que se foda!
domingo, 14 de fevereiro de 2010
Crónica do Baco 16
Gosto muito do Luís. O homem lutou pela sua cidade, dentro e fora do país e deu um bom contributo nas vezes que teve que dar o corpo ao manifesto. É verdade que já não falo com ele há meses e conjecturo que já não se lembra da minha cara e a Hermínia leva o tempo a bajulá-lo e a dizer-me "o menino havia de o ouvir discursar... fala tão bem...". (estou a piratear o Grand Torino, do Clint Eastwood,depois do thriller falhado que é Mystic River, depois do díptico de efeito fácil sobre Ywo Jima, depois do pastelão competente que é Changeling, eis um filme sobre redenção que recupera a magia de Perfect World, com o qual estabelece o paralelo mais óbvio).
Já nem a oiço ... a culpa, creio, foi de quem andou a ouvir Vangelis tanto tempo. Vangelis está para a música como a série Rocky para o cinema, isto é, inspira-nos da forma mais primária que se pode imaginar. Quando Woody Allen disse que ouvir Wagner lhe dava vontade de invadir a Polónia, ainda não se ouvia muito Vangelis, caso contrário teria dito que ouvir Vangelis o fazia capaz de roubar a bola ao Zbigniew Boniek. Ora, um ego como o dele, com propensão estratosférica, pode sair da órbita terrestre ao som dos Xutos e Pontapés em vez do Vangelis. Foi isso que aconteceu no dia do Benfica-Everton, estava eu a ler "O Homem que não tira o Palito da Boca" na minha pastelaria da Luciano Cordeiro, com a Tânia ao colinho quando os vi entrar. Menos explicáveis foram as suas reacções. Parecia que seria impossível não serem moradores habituais. Dizia um : "Podia estar tranquilamente a ganhar dinheiro e a ter fins de semana e vai para aquilo... Fiquei surpreendido. Coloco-me no lugar dele, se alguém me convidasse eu não aceitava. É um acto de grande generosidade." Custa-me lembrar o que era antes, mas talvez por isso, seria escusado andar a contribuir com estas coisas para a credibilização do anedotário sobre a corporação que já dirigiu. Foda-se mas eu também não sou exemplo para ninguém mas não gosto do Elefante Branco. Deixei de trabalhar e estou numa rota existencial que tende para a autarcia de inspiração quase recolectora, mas esta ideia redutora de que vivemos a vida apenas em função do salário mais alto deveria ficar circunscrita à imprensa desportiva. A Tatiana quando larga o companheiro e se perde nos braços de um qualquer é que tem razão porque não vale a pena matar um grande amor por uma amizade pequenina. E vice-versa. Mas é duro aprender as duas lições no mesmo dia, mesmo que - e necessariamente - com pessoas diferentes.
Já nem a oiço ... a culpa, creio, foi de quem andou a ouvir Vangelis tanto tempo. Vangelis está para a música como a série Rocky para o cinema, isto é, inspira-nos da forma mais primária que se pode imaginar. Quando Woody Allen disse que ouvir Wagner lhe dava vontade de invadir a Polónia, ainda não se ouvia muito Vangelis, caso contrário teria dito que ouvir Vangelis o fazia capaz de roubar a bola ao Zbigniew Boniek. Ora, um ego como o dele, com propensão estratosférica, pode sair da órbita terrestre ao som dos Xutos e Pontapés em vez do Vangelis. Foi isso que aconteceu no dia do Benfica-Everton, estava eu a ler "O Homem que não tira o Palito da Boca" na minha pastelaria da Luciano Cordeiro, com a Tânia ao colinho quando os vi entrar. Menos explicáveis foram as suas reacções. Parecia que seria impossível não serem moradores habituais. Dizia um : "Podia estar tranquilamente a ganhar dinheiro e a ter fins de semana e vai para aquilo... Fiquei surpreendido. Coloco-me no lugar dele, se alguém me convidasse eu não aceitava. É um acto de grande generosidade." Custa-me lembrar o que era antes, mas talvez por isso, seria escusado andar a contribuir com estas coisas para a credibilização do anedotário sobre a corporação que já dirigiu. Foda-se mas eu também não sou exemplo para ninguém mas não gosto do Elefante Branco. Deixei de trabalhar e estou numa rota existencial que tende para a autarcia de inspiração quase recolectora, mas esta ideia redutora de que vivemos a vida apenas em função do salário mais alto deveria ficar circunscrita à imprensa desportiva. A Tatiana quando larga o companheiro e se perde nos braços de um qualquer é que tem razão porque não vale a pena matar um grande amor por uma amizade pequenina. E vice-versa. Mas é duro aprender as duas lições no mesmo dia, mesmo que - e necessariamente - com pessoas diferentes.
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
Crónica do Baco 15
O Alentejo tem a maior taxa de suicídios do mundo. Parece que há uma certa apetência pelo enforcamento, talvez porque os ramos do sobreiro cresçam quase na horizontal, o que é um convite a lançar uma corda, e porque por aqui se encontrem muitos bancos de cozinha, que facilmente podem ser levados para o campo e tombados pelo próprio, já com a corda ao pescoço. Foda-se um gajo não nasceu para perecer na ponta duma corda. Deve ser por isso que gosto da Laetitia Casta, a modelo francesa detentora da melhor associação nome-métier desde que Futre pendurou as botas, porque ela me entesa à bruta quando aparece absolutamente flawless no anúncio da L'Oreal. Olho para Herminia quando se ajoelha a lavar os meus ladrilhos mas murcho mais rapidamente que um pescoço de frango quando lhe avisto a varizes rôxas. Tatiana deixou de aparecer depois de se ter rapado toda e só me lembro do nela quando vejo a minha gillete. Para quem viveu em França nos anos noventa, havia uma colecção de sex symbols para todos os gostos: Virginie Ledoyen, talhada para a infidelidade e a perversão; Isabelle Hupert, à medida de uma fantasia sofisticada; Julie Gayet (para ser franco, só reparei nela mais tarde),que inspira a vontade de lhe fazer um filho; Élodie Bouchez, à imagem de uma amiga com quem tive um piqueno deslize; Sandrine Kiberlain, que nos usa na cama com o desprezo e a angústia de quem, por o parceiro saber pouca filosofia, sente a coisa como um acto de bestialismo. Sobre todas elas paira Laetitia. Mais inocente, menos sofisticada, nada maternal, sem que despertasse confiança e muito pouco intelectual, o que Laetitia tinha, além da beleza, era uma naturalidade absolutamente desarmante. É esta naturalidade que a condenou já e a condenará para sempre a ser má actriz, mas é por isso que será sempre irresistível. Ela e todas as gajas boas que se despem nas revistas. Tem uma naturalidade e uma confiança no seu corpo superior à de qualquer estrela porno e, ainda assim, imaculada. Dez anos depois, a mulher que "gosta muito de fazer amor" continua igual. Não há cosmética para isto, nem para a vontade que tenho em me masturbar quando a contemplo tão boa e tão longe.
domingo, 7 de fevereiro de 2010
Crónica do Baco 14
A rotina dos jornais tem um lado divertido. Tal como os místicos andam a sondar o futuro nos sítios errados - as entranhas de animais, os búzios, os horóscopos - , também procuro reparar em que notícia Tânia (a minha gatinha) se alivia. Esta tarde cagou sobre a cara de Vasco Pulido Valente e fiquei com sentimentos contraditórios. A ideia de alguém cagar sobre um colunista era-me impensável até hoje. Vitupérios? Sim. Um esgar de desprezo? Certamente. Mas cagar? Não. Nem sequer limpar-me a uma coluna de Luís Delgado, sendo que há uma diferença vectorial entre cagar sobre o jornal e pegar no jornal para limpar o rabo. O episódio teve pois o louvor de me deixar a pensar sobre questões novas e isso é enriquecedor. Mas veio depois alguma frustração. Ter sido logo o Vasco Pulido Valente, quando havia um Baptista Bastos a três palmos e me é cada vez mais difícil gostar de Baptista Bastos? Isto já para não falar de Vasco Graça Moura, o único cronista que a partir de agora me leva a querer ver Tânia de diarreia e que estava fortuitamente protegido por pequeno recipiente de plástico que já despertou mais o interesse da gata. As medidas a tomar são simples. Primeira: evitar que a última página de O Público se sujeite a estas vergonhas, mesmo que para isso tenha de deixar a penúltima página virada para cima e expor o Miguel Esteves Cardoso. Um capricho antes da segunda medida: acumular editoriais de O Público e atapetar um dia a cozinha só com os de José Manuel Fernandes (Tânia defeca em média 4 vezes a cada 24 horas). Segunda: começar também a usar o Expresso, por um critério de pluralidade, que do jornal também faz parte um vasto leque de cronistas. Não compro aquele semanário há anos mas, se ainda tiver aquele formato spreadsheet, vai-me simplificar a vida. A Hermínia que te tanta merda limpar se estafa, é que não acha graça nenhuma ao ritual, acha um desperdício estuporar os jornais e diz-me: O menino devia gastar os jornais cá da terra.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
Esta semana a minha gata começou a parir. Ao quarto gatinho, não foi difícil perceber que Tânia (batizmo á nascença) era a gatinha mais esperta da ninhada de sete. Mas regressei a casa com a dúvida de saber quão esperta Tânia seria. A dúvida entretanto desfez-se. Apetece-me concluir que a Tânia aprendeu sozinha a fazer as necessidades sobre os jornais dos amigos. Tinha lido por aí que é difícil ensinar os gatinhos e que só com técnicas de positive reinforcement e fear conditioning se lá chega, mas não foi preciso passar por esse clockwork orange doméstico. Há dois dias, em vez de cobrir de jornais os 50 ladrilhos da cozinha, cobri apenas 12. Ontem, Tânia tinha deixado 7 cagalhotos sobre os jornais e 1 de fora sobre os irmãozitos. Qual a probabilidade se este resultado ter sido fruto do acaso e não da capacidade de Tânia discriminar entre onde se pode e onde não se pode cagar? Para mim foi muito frutuoso saber que no meio de seis machos a única fêmea é precisamente a que melhor se safa. Logo à nascença não hesita em cagar em cima dos irmãos. É genético!
domingo, 31 de janeiro de 2010
Crónica do Baco 13
Falta-nos o pudor de uma cultura protestante para fazer uma força criadora da inibição do public display of affection. Foi com esta frase diplomática que o songamonga terminou o jantar. Os americanos falam insistentemente nisto, ao ponto de terem inventado uma sigla (PDA) Em rigor, PDA refere-se sempre a manifestações físicas de afecto: dar as mãos, beijar, abraçar. Mas até os americanos sabem que o PDA de grau mais elevado é feito com palavras. Isto levanta alguns problemas. Ao contrário de um linguadão em público, acto que só tem uma leitura possível, as palavras são polissémicas e os textos admitem níveis de leitura. No meio desta merda de conversa entre a Tatiana e o songamonga tenho é vontade de que o fim de semna termine rapidamente e eles se marchem para Lisboa e me deixem entregue á minha rua solitária de Estremoz. Dos PDA passaram para os blogs (ainda bem que tenho passado no meio das hordas de blogs estremocenses). Chiça não aguento a confusão dos informáticos estremocenses. Diz-me a Herminia (a minha empregada) que há um gajo local, pouco lavado, fabricante de blogs em série que leva as noites a masturbar-se. Torna-se pois possível discutir um PDA verbal como se o PDA não estivesse lá e é até de bom-tom que assim seja. Ou não.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
Em si, o sorriso de uma mulher é pouco informativo. O que conta é a forma como a mulher remata o sorriso. Tatiana sorriu hoje para mim e depois creio ter visto nela sinais de privação sexual. Fiel às minhas origens, dirigi-me de imediato à lavandaria, que tem uma empregada muito simpática, e confirmei que não é qualquer sorriso que vem com aquela mensagem. Acontece que ela não me ligou peva, falava com uma mulher grande de riso amarelo, com um bigode tipo Rui Tovar e vociferava: 8 assessores e nós a pagar, uma vergonha, e tal e coiso..!
Como não me ligavam peva e vi que a conversa descambava para a politica saí de mansinho, pensanso na minúscula pubis em comparação com o bigode forfalhudo da grandona que vociferava contra a câmara.
É provável que amanhã recomece a fazer flexões e que apare os pêlos da região púbica. Agora que penso nisso, em casa só tenho uma tesoura de amanhar peixe...
Como não me ligavam peva e vi que a conversa descambava para a politica saí de mansinho, pensanso na minúscula pubis em comparação com o bigode forfalhudo da grandona que vociferava contra a câmara.
É provável que amanhã recomece a fazer flexões e que apare os pêlos da região púbica. Agora que penso nisso, em casa só tenho uma tesoura de amanhar peixe...
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Crónica do Baco 12
Esta noite, em casa do inventor, deu-se uma daquelas coincidências órfãs de plateia, isto é, que dizem algo apenas à pessoa que as experimenta, sem que adiante estar a fornecer aos outros todos os elementos que julgamos necessários e suficientes para partilhar o espanto. Dizia o inventor : esta terra é tão poucochinha que até o teatro fechou. Naturalmente, poupar-vos-ei aqui o tal proselitismo do artista e o que se segue apenas me serve.
Fechou? perguntou o inventor com cara de poucos amigos. Pois que se foda!! Quanto mais conheço os homens mais gosto dos cães. Fechem tudo e vendam aos espanhóis...
O meu eremitismo ficou agora ferido de morte; se sobre o fecho do teatro nunca chegou a pairar a sombra do ciúme (nunca lá entrei, mas dizem que é maravilhoso), paira agora, monstruosa, a sombra de vender "isto" aos espanhóis; adio o livro dos russos que ando a ler, que a minha vida hoje é limpar o chão da cozinha dos cagalhotos da Maria (a minha gata). Mas aceito por fim que um cão que cai dum escadote desperta no dono sensações mais ricas do que um cágado. Não falo de cor. Tive um desses répteis em criança, de resto um cágado alentejano apanhado na ribeira de Tera pelo meu tio e levado depois para Lisboa. O animal desapareceu tragicamente - queda da varanda - e nunca mais foi encontrado, nunca se fez o seu luto. Poderia ainda pairar nos meus sonhos, como pairam por aí Elvis, Morrison, Maddie, não fosse a Tatiana ter dado com ele debaixo do cesto da roupa suja, vai para dois meses. Desgraçado!
Fechou? perguntou o inventor com cara de poucos amigos. Pois que se foda!! Quanto mais conheço os homens mais gosto dos cães. Fechem tudo e vendam aos espanhóis...
O meu eremitismo ficou agora ferido de morte; se sobre o fecho do teatro nunca chegou a pairar a sombra do ciúme (nunca lá entrei, mas dizem que é maravilhoso), paira agora, monstruosa, a sombra de vender "isto" aos espanhóis; adio o livro dos russos que ando a ler, que a minha vida hoje é limpar o chão da cozinha dos cagalhotos da Maria (a minha gata). Mas aceito por fim que um cão que cai dum escadote desperta no dono sensações mais ricas do que um cágado. Não falo de cor. Tive um desses répteis em criança, de resto um cágado alentejano apanhado na ribeira de Tera pelo meu tio e levado depois para Lisboa. O animal desapareceu tragicamente - queda da varanda - e nunca mais foi encontrado, nunca se fez o seu luto. Poderia ainda pairar nos meus sonhos, como pairam por aí Elvis, Morrison, Maddie, não fosse a Tatiana ter dado com ele debaixo do cesto da roupa suja, vai para dois meses. Desgraçado!
sábado, 16 de janeiro de 2010
Crónica do Baco 11
Ontem de noite chamei a polícia. Deve ter havido mais uma altercação no bairro ao lado do hipermercado. Da janela, consegui avistar uma nuvem de fumo e uma mulher a gritar há vários minutos "chamem a policía", trocando a tónica, quando finalmente resolvi ligar, pois demorei a perceber o que dizia, parecia lamento de cigana. O policial foi muito simpático, agradeceu a chamada, mas como entretanto a mulher deixara de gritar, disse-me apenas para ligar outra vez se voltasse a ouvir um apelo dos cântigos étnicos. Voltei então às minhas leituras, mais descansado. Ou nem tanto. Uma hora depois, o meu quarto foi invadido pela luz intermitente de um carro de polícia ou de uma ambulância. Corri para a janela, olhei na direcção de Portalegre e... nada. Não havia carro. Não havia bairro. Não havia gente, nem barracas. Ou então tinha adormecido e não chegou a passar carro nenhum, a luz fora um produto do meu desconforto. Já é de manhã e ainda não voltei a ver a mulher. Foda-se, será que voltei a beber?
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
Ontem foi dos dias mais tristes desde que aqui cheguei. Levaram-me a um bar de gente de esquerda (disseram-me). Abortei a noite, saí com o tímpano atordoado, tomei um banho, bebi um daiquiri bem batido e liguei a instruir o António para que se dirigisse ao Bairro Alto e, em meu nome e por minha conta, se embebedasse até perto de um coma alcoólico. Este estaminé não volta a abrir antes de segunda. O António embebeda-se eu pago e ressaco.
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
Crónica do Baco 11
Um padre precisa de encontrar uma solução que negue a sua natureza sexual. O eremita tem este problema e outro: como negar também a sua condição social? Os homosexuais também já não têm razão para negar a sua opção. Parece que hoje havia uma grande "bicha" nas escadas dos parlamento português. Agora já podem acasalar oficialmente. Quando vim para Estremoz foi também para me livrar destas frugalidades. A solução que encontrei é uma espécie de dois em um: Tatiana. Tatiana absorve todas as minhas necessidades de contacto humano e toda a libido. Este último efeito é particularmente eficaz: não deixa de ser esclarecedor que na primeira viagem que invento fora de Estremoz - e logo para um destino tropical, onde o calor, as gentes e as ventoinhas no tecto criam uma atmosfera carnal - seja Hermínia a acompanhar-me. Hermínia é hoje a mais assexuada das criaturas que conheço, mais do que uma irmã ou uma freira, talvez uma irmã que se fez freira. O elo com Hermínia é físico mas casto, sem que para isso precisasse de um clímax, isto é, não se trata de um relacionamento pós-sexual. Como posso ter-me apaixonado pela minha empregada ?
domingo, 3 de janeiro de 2010
Crónica do Baco 10
No primeiro dia do novo ano descobri que o nosso castelo afinal tem ameias, umas ameias de brincar, mas não há dúvida de que se parecem com as de um castelo a sério tanto quanto as ameias de um castelo de areia. Como interpretar este esquecimento? Se calhar tenho pelo castelo um respeito que o castelo não merece. Depois de ter visto o castelo de Monsaraz esqueci as ameias de Estremoz e imaginei-as em Património Mundial. Porra! Foda-se! O homem disse que ia lutar e eu acreditei. Não há vinha sobre a pérgula. A pérgula tem uma vegetação densa. Eu acreditei. Ele é que não!
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