domingo, 31 de janeiro de 2010
Crónica do Baco 13
Falta-nos o pudor de uma cultura protestante para fazer uma força criadora da inibição do public display of affection. Foi com esta frase diplomática que o songamonga terminou o jantar. Os americanos falam insistentemente nisto, ao ponto de terem inventado uma sigla (PDA) Em rigor, PDA refere-se sempre a manifestações físicas de afecto: dar as mãos, beijar, abraçar. Mas até os americanos sabem que o PDA de grau mais elevado é feito com palavras. Isto levanta alguns problemas. Ao contrário de um linguadão em público, acto que só tem uma leitura possível, as palavras são polissémicas e os textos admitem níveis de leitura. No meio desta merda de conversa entre a Tatiana e o songamonga tenho é vontade de que o fim de semna termine rapidamente e eles se marchem para Lisboa e me deixem entregue á minha rua solitária de Estremoz. Dos PDA passaram para os blogs (ainda bem que tenho passado no meio das hordas de blogs estremocenses). Chiça não aguento a confusão dos informáticos estremocenses. Diz-me a Herminia (a minha empregada) que há um gajo local, pouco lavado, fabricante de blogs em série que leva as noites a masturbar-se. Torna-se pois possível discutir um PDA verbal como se o PDA não estivesse lá e é até de bom-tom que assim seja. Ou não.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
Em si, o sorriso de uma mulher é pouco informativo. O que conta é a forma como a mulher remata o sorriso. Tatiana sorriu hoje para mim e depois creio ter visto nela sinais de privação sexual. Fiel às minhas origens, dirigi-me de imediato à lavandaria, que tem uma empregada muito simpática, e confirmei que não é qualquer sorriso que vem com aquela mensagem. Acontece que ela não me ligou peva, falava com uma mulher grande de riso amarelo, com um bigode tipo Rui Tovar e vociferava: 8 assessores e nós a pagar, uma vergonha, e tal e coiso..!
Como não me ligavam peva e vi que a conversa descambava para a politica saí de mansinho, pensanso na minúscula pubis em comparação com o bigode forfalhudo da grandona que vociferava contra a câmara.
É provável que amanhã recomece a fazer flexões e que apare os pêlos da região púbica. Agora que penso nisso, em casa só tenho uma tesoura de amanhar peixe...
Como não me ligavam peva e vi que a conversa descambava para a politica saí de mansinho, pensanso na minúscula pubis em comparação com o bigode forfalhudo da grandona que vociferava contra a câmara.
É provável que amanhã recomece a fazer flexões e que apare os pêlos da região púbica. Agora que penso nisso, em casa só tenho uma tesoura de amanhar peixe...
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Crónica do Baco 12
Esta noite, em casa do inventor, deu-se uma daquelas coincidências órfãs de plateia, isto é, que dizem algo apenas à pessoa que as experimenta, sem que adiante estar a fornecer aos outros todos os elementos que julgamos necessários e suficientes para partilhar o espanto. Dizia o inventor : esta terra é tão poucochinha que até o teatro fechou. Naturalmente, poupar-vos-ei aqui o tal proselitismo do artista e o que se segue apenas me serve.
Fechou? perguntou o inventor com cara de poucos amigos. Pois que se foda!! Quanto mais conheço os homens mais gosto dos cães. Fechem tudo e vendam aos espanhóis...
O meu eremitismo ficou agora ferido de morte; se sobre o fecho do teatro nunca chegou a pairar a sombra do ciúme (nunca lá entrei, mas dizem que é maravilhoso), paira agora, monstruosa, a sombra de vender "isto" aos espanhóis; adio o livro dos russos que ando a ler, que a minha vida hoje é limpar o chão da cozinha dos cagalhotos da Maria (a minha gata). Mas aceito por fim que um cão que cai dum escadote desperta no dono sensações mais ricas do que um cágado. Não falo de cor. Tive um desses répteis em criança, de resto um cágado alentejano apanhado na ribeira de Tera pelo meu tio e levado depois para Lisboa. O animal desapareceu tragicamente - queda da varanda - e nunca mais foi encontrado, nunca se fez o seu luto. Poderia ainda pairar nos meus sonhos, como pairam por aí Elvis, Morrison, Maddie, não fosse a Tatiana ter dado com ele debaixo do cesto da roupa suja, vai para dois meses. Desgraçado!
Fechou? perguntou o inventor com cara de poucos amigos. Pois que se foda!! Quanto mais conheço os homens mais gosto dos cães. Fechem tudo e vendam aos espanhóis...
O meu eremitismo ficou agora ferido de morte; se sobre o fecho do teatro nunca chegou a pairar a sombra do ciúme (nunca lá entrei, mas dizem que é maravilhoso), paira agora, monstruosa, a sombra de vender "isto" aos espanhóis; adio o livro dos russos que ando a ler, que a minha vida hoje é limpar o chão da cozinha dos cagalhotos da Maria (a minha gata). Mas aceito por fim que um cão que cai dum escadote desperta no dono sensações mais ricas do que um cágado. Não falo de cor. Tive um desses répteis em criança, de resto um cágado alentejano apanhado na ribeira de Tera pelo meu tio e levado depois para Lisboa. O animal desapareceu tragicamente - queda da varanda - e nunca mais foi encontrado, nunca se fez o seu luto. Poderia ainda pairar nos meus sonhos, como pairam por aí Elvis, Morrison, Maddie, não fosse a Tatiana ter dado com ele debaixo do cesto da roupa suja, vai para dois meses. Desgraçado!
sábado, 16 de janeiro de 2010
Crónica do Baco 11
Ontem de noite chamei a polícia. Deve ter havido mais uma altercação no bairro ao lado do hipermercado. Da janela, consegui avistar uma nuvem de fumo e uma mulher a gritar há vários minutos "chamem a policía", trocando a tónica, quando finalmente resolvi ligar, pois demorei a perceber o que dizia, parecia lamento de cigana. O policial foi muito simpático, agradeceu a chamada, mas como entretanto a mulher deixara de gritar, disse-me apenas para ligar outra vez se voltasse a ouvir um apelo dos cântigos étnicos. Voltei então às minhas leituras, mais descansado. Ou nem tanto. Uma hora depois, o meu quarto foi invadido pela luz intermitente de um carro de polícia ou de uma ambulância. Corri para a janela, olhei na direcção de Portalegre e... nada. Não havia carro. Não havia bairro. Não havia gente, nem barracas. Ou então tinha adormecido e não chegou a passar carro nenhum, a luz fora um produto do meu desconforto. Já é de manhã e ainda não voltei a ver a mulher. Foda-se, será que voltei a beber?
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
Ontem foi dos dias mais tristes desde que aqui cheguei. Levaram-me a um bar de gente de esquerda (disseram-me). Abortei a noite, saí com o tímpano atordoado, tomei um banho, bebi um daiquiri bem batido e liguei a instruir o António para que se dirigisse ao Bairro Alto e, em meu nome e por minha conta, se embebedasse até perto de um coma alcoólico. Este estaminé não volta a abrir antes de segunda. O António embebeda-se eu pago e ressaco.
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
Crónica do Baco 11
Um padre precisa de encontrar uma solução que negue a sua natureza sexual. O eremita tem este problema e outro: como negar também a sua condição social? Os homosexuais também já não têm razão para negar a sua opção. Parece que hoje havia uma grande "bicha" nas escadas dos parlamento português. Agora já podem acasalar oficialmente. Quando vim para Estremoz foi também para me livrar destas frugalidades. A solução que encontrei é uma espécie de dois em um: Tatiana. Tatiana absorve todas as minhas necessidades de contacto humano e toda a libido. Este último efeito é particularmente eficaz: não deixa de ser esclarecedor que na primeira viagem que invento fora de Estremoz - e logo para um destino tropical, onde o calor, as gentes e as ventoinhas no tecto criam uma atmosfera carnal - seja Hermínia a acompanhar-me. Hermínia é hoje a mais assexuada das criaturas que conheço, mais do que uma irmã ou uma freira, talvez uma irmã que se fez freira. O elo com Hermínia é físico mas casto, sem que para isso precisasse de um clímax, isto é, não se trata de um relacionamento pós-sexual. Como posso ter-me apaixonado pela minha empregada ?
domingo, 3 de janeiro de 2010
Crónica do Baco 10
No primeiro dia do novo ano descobri que o nosso castelo afinal tem ameias, umas ameias de brincar, mas não há dúvida de que se parecem com as de um castelo a sério tanto quanto as ameias de um castelo de areia. Como interpretar este esquecimento? Se calhar tenho pelo castelo um respeito que o castelo não merece. Depois de ter visto o castelo de Monsaraz esqueci as ameias de Estremoz e imaginei-as em Património Mundial. Porra! Foda-se! O homem disse que ia lutar e eu acreditei. Não há vinha sobre a pérgula. A pérgula tem uma vegetação densa. Eu acreditei. Ele é que não!
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