Saí com a máquina fotográfica dentro do estojo para ir fotografar o castelo. Não a torre de menagem, um resto de muralha, sequer uma ameia, mas apenas para observar a parte mais elevada da cidade é assim se referem à zona do reservatório de água com uma área circundante mais ou menos ajardinada. Ali existe uma pérgula com vinha que dá uma sombra agradável e a vista sobre o casario é empolgante, apetece logo conquistar Marrocos (vide Woody Allen). Ainda antes de lá chegar encontrei um velhote num banco de jardim, que mal me viu pegou numa viola campaniça e começou a tocar uma modinha. Pensei que me desafiava para uma desgarrada e sentei-me, com ideias de apenas o ouvir. Assim foi. Depois ele disse qualquer coisa que não percebi bem (é desdentado) e começou a improvisar umas quadras sobre o filho que é trabalhador da autarquia e anda descontente com a mudança de horário. Há poucas coisas neste mundo mais desagradáveis do que ouvir um velho desdentado dar eco ao descontentamento do filho. Mas o velho tinha um instinto melódico apurado, espremeu a língua a dizer mal do gajo que mudou o horário até chegar uma senhora gorda e avantajada, que jurei já ter visto nos cartazes da politica. Disse ela que os gajos não trabalham e quem manda é que pode. Vendida! Disse o velho depois dela abalar. Andou o tocar o bombo por uns e agora mama no tacho já diz que os outros é que o são.
Convidei-o a subir comigo ao castelo, mas creio que me disse já não ter pernas para subir aquela rua. Espero voltar a vê-lo.
Subi a rua íngreme com menos ligeireza. Os anos vão-me tratando bem. Se é verdade que também vão tardando outras coisas, ainda tardam a calvície e a barriga. Já no cimo, batido por uma aragem fresca, um cartaz amarrotado atravessou-se à minha frente. Rodando, galguei o lancil do passeio e fui pela rua direita abaixo, ganhando velocidade até encontrar uma tasca que tresanda a copos de vinho. Julguei ter visto o rosto de um preto numa das suas pontas e lembrei-me de Ricardo Chibanga. Há anos que a imagem de um cartaz alado de Ricardo Chibanga me persegue, ora descolando-se, ora indo do chão para a parede, como numa sequência com a seta do tempo invertida. No cartaz desta manhã havia um preto, quase juro, mas não o Chibanga; seria por certo uma estrela de hip-hop. Diz a Hermínia que as estrelas do ídolos levaram o dinheiro todo de Estremoz....
Aguentei-me no castelo até quase ao meio-dia, estudando Villa-Lobos. Depois começou a fazer muito calor, mesmo à sombra.
Fiquei em casa a ler durante a tarde até o Luís me telefonar a informar que ia ao S.Romão. Onde? Ao S. Romão!
Já sei que ele virá em mau estado, por isso recuso e virei-me para a música. O meu irmão deixou-me a guitarra, o computador, roupa e três caixotes com livros. Tenho 12 metros de prateleiras em casa para que preciso do pó e vinho?. Quanto tempo preciso de ficar aqui até ter lido 12 metros de lombadas? Comecei pelo Crimes Exemplares, de Max Aub. É o exemplo acabado de como um conjunto de boas histórias não é suficiente para fazer um bom livro. Como quase todas seguem a mesma estrutura, Aub não se limita a destruir a tensão do policial, consegue mesmo aborrecer. Julga que banalizar o crime mais horrendo chega para seduzir o leitor e aplica a fórmula ad nauseam, mas o que o leitor interioriza não é a banalização do crime horrendo, é a banalização do método de Aub. Enfim, antes sacrificar um autor do que inocentes às mãos de um eventual leitor perturbado pelo génio do escritor. Como se não bastasse a rigidez estrutural, Aub tem insuficientes obsessões para diversificar as histórias. Quantos criminosos por intolerância com a falta de pontualidade estamos dispostos a aturar? Ainda menos do que os criminosos que não toleram gente palradora. Parece que este é um livro de culto, mas há cultos que não se entendem. Em todo o caso, perfiz 2 cm.
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