Variei totalmente no destino de férias. Um quarto só para mim à beira da barragem é um deleite inconfundível, mas estou triste e frustado. Não consigo boiar na barragem. Dizem que é da falta de salinidade, mas eu sei que é por ter a consciência pesada. Aliás, faz sentido explorar a tese de que a culpa judaico-cristã é indissociável da proximidade do Mar Morto. No Mar Morto a salinidade é tão elevada que o difícil é não flutuar, mas alguém deve ter sido o primeiro a ir ao fundo. Daí nasceu a noção de peso na consciência e um teste inequívoco.
Entretanto a minha empregada, tem uma nova e espinhosa missão. Visita-me todos os dias, aqui nas margens da barragem, e entrego-lhe umas notas que ele depois publica no blogue quando chega a Estremoz (dei-lhe as chaves de casa e a senha do Baco). Ainda pensei em transmitir os meus posts por telefone, mas o nível de literacia da mulher iria semear o Baco com ortografia liceal e testar os limites da paciência dos leitores. Traz-me também jornais, que leio antes da hora do almoço e que depois uso para atiçar a fogueira em que cozinho o jantar. Hoje será um achigã escalado. Conto escrever sobre o firmamento nos próximos dias, assim que o céu fique completamente limpo. Disse também ao moço filho de Tatiana para trazer a prancha amanhã. Quero fotografar os surfistas na barragem.
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