sábado, 9 de outubro de 2010

Crónica do Baco 40

Regressei do monte à boleia. Agora que a chuva voltou, sinto orgulho nos meus tupperwares. Também sinto orgulho da minha ausência de vida nesta cidade, inclusive no Verão. Seria muito fácil enlouquecer em Estremoz, mas tenho a certeza de que tal nunca sucederá. A cultura virou coltura mas em Lisboa era ao contrário. Parecia difícil ficar louco por lá, mas comecei a desconfiar que era só uma questão de tempo. Estremoz salvou-me. Mas agora está-me a põr doente. Foda-se aqui deixou de acontecer, como verbalizaria o Carlos Pinto Coelho....
Regressei ontem a Zafra, pela mão, foda-se digo pelo carro de dois amigos. Ludibriei a Herminia dizendo que ía a um velório a Badajoz e confiei no corrimão verde, saltei a cancela. Percorri o chão de tijoleira sob o alpendre sem hesitar, mas estanquei diante da porta. Foi a um fim de tarde, tinha o poente pelas costas. A luz era a mais reconfortante de todas, uma luz quente que nunca aparece nas cenas de terror. Mas nem assim fui capaz de entrar na casa das putas em Badajoz. Estes gajos dizem que vão a um velório e enfiam-se na primeira casa de gajas que conhecem. Mierda!
Não tive medo que lá dentro o soalho cedesse, nem dos bichos que entretanto se terão instalado, nem de um improvável vagabundo, nem de confrontar as memórias com o lugar. Tive medo de encontrar a minha avó e de ela querer cobrar-me pela vez em que, por acidente, a derrubei. Foi a única interacção que tive com ela, pois sempre a conheci doente.

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