Quando entrei estava um fulano de gravata berrante sozinho a preparar umas cadeiras e umas mesas e desviou o olhar, mas antes que me pudesse aproximar vi que alguem saía da casa de banho publica, ainda a ajeitar a braguilha. "O gajo não lava as mãos", pensei. Os dois apertaram as mãos. Pensei: É estranho ver dois homens apertarem as mãos depois de mijar sem lavar as manápulas. Sentei-me a duas mesas de distância (foda-se, escolhe outro...). O gajo da gravata berrante cumprimentou uma gaja e depois outra. Seguiram os três na arrumação enquanto o gajo que não lava as mãos cumprimentava outros gajos.
Os serões na provincia são dominados pelos copos, que Pablo, um espanhol corrupto que ninguem pode ver e Nino professor aposentado, conhecido por lambe-botas, acompanham sem reagir ao zapping. Pablo passa a noite a descascar pevides e a beber aguardente na presença de gente ilustre. Visto pelas costas, com aquele excesso de testa que lhe faz uma prega o cabelo rapado a pente de tamanho 5 e os cotovelos ligeiramente afastados do corpo e simétricos - uma tentativa de concentrar a destria na ponta dos dedos, mas que não evitava um chavascal de cascas a seus pés -, Pablo parecia um símio. Talvez por isso, quando por momentos se espreguiçou, esticando os braços para trás com os os punhos cerrados, a sua mão direita ficou tão perto de mim e exactamente no enfiamento de Tatiana que se gerou um trompe d'oeil: vi nele um guapo servidor pronto a lamber colhões de quem mande, enquanto uma loira prende no abraço dos seus dedos crispados sujos de cimento. Apeteceu-me ter uma reacção instintiva, levantar-te da cadeira e gritar: "Pablo corrupto!". Contive-me!"
Atrás dele, numa mesa comprida Herminia tinha um esgar de horror, quem sabe se por se lembrar daqueles copos que Nino despacha nos bar atrás dos mandantes importante. Só me ocorreu rematar a exclamação com "... Stravinsky! Estão a tocar Stravinsky nos altifalantes da feira...
Pablo abriu o sorriso numa gargalhada, creio que sem ter percebido o que eu dissera, ofereceu-me a mão e ... pensei duas vezes (será que este é como os gajos de gravata...?) depois do cumprimento voltou à sua pose prostrada de macho dominante. Herminia baixou e levantou os olhos para mim, com um misto de condescendência e de cumplicidade. Eu mantive o braço direito pendido, e a mão abaixo do nível do assento, afastada do resto do corpo.
A noite decorreu sem mais incidentes. Só à saída um homem de porte enxuto que devia ter uns 60 anos me pegou pelo braço, para me sussurrar: "então o amigo confunde Smetana com Stravinsky? Fixe o que eu lhe digo: sempre que estiver a passar um daqueles separadores na televisão com lagos e cisnes, é provável que se trate da Die Moldau". Foi assim que conheci o inventor que persegue a máquina de movimento perpétuo. Ofereci-lhe a mão esquerda e ele nem reparou - pode ser que seja canhoto como eu.
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