quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Crónica do Baco 45

No Inverno passado, anoitecia, mas não muito cedo, entrei num comboio em Paris e só parei em Brighton, depois de uma penosa interacção com a senhora do guichet da estação de Londres. Creio que para mim o século acabou nessa mesma noite, enquanto mijava cerveja para o oceano Atlântico na praia, não muito longe de outros homens concentrados na mesma tarefa. Foi seguramente no Inverno. Não me lembro sequer do meu relationship status, se me é permitido o anacronismo, mas deduzo que estava livre, pois de outro modo não teria estado tão alerta à passagem do tempo.
Brighton é lugar triste, como sucede por toda a Inglaterra e eu ia na terceira fila do comboio ao lado do tipo de grande porte e duma inglesa com cara de caçador alentejano. O meu plano era passar a noite a contemplar o céu. Aguentei-me ao relento até que escurecesse mas arrefeceu muito e o frio era húmido. Voltei da janela enregelado até aos tomates. A inglesa de má modo irrompeu e num inglês macarrónico informou-me que tinha perdido o lugar. Fosse ela sócia da associação de caçadores alentejanos e outro galo cantaria. Lá o manageiro tem lugar marcado e cuide-se quem tomar o seu lugar. Ou se levanta ou ouve das boas.
Abriguei-me depois na casa de banho, de onde consigui ver o céu porque o tecto abateu com parte do telhado e ficou uma clarabóia de contornos definidos por barrotes quebrados e chapas mal presas - que são um perigo. Tentei fazer uma fogueira mas não encontrei jornais para atear o jogo. Fiquei uma boa hora naquele breu, que os astros não conseguiam a iluminar. Nunca tinha entrado de numa casa de banho dum comboio inglês, porque o lugar me mete medo. Em tempos encontrei lá um cadáver de rato; por vezes os pássaros assustam-se e saem de rompante pela porta que abro; vi por lá umas pinturas nas paredes; contam-me que há delinquentes a pernoitar nas retretes - é o squatting à alentejana.
Por isso sempre entrei na casa de dia já em Brighton sem demoras. Mas a imagem dos astros tão próximos uns dos outros tranqulizou-me, talvez por sentir que milhares de outras pessoas também os olhavam naquele preciso momento.
Acabei por desistir de ser caçador, mas não por medo do gajo que tem o lugar marcado , foi mesmo pelo frio. Ao chegar a casa descobri na net uma foto, tirada de Manila, provavelmente já há umas horas. Pergunto-me se Herminia, Ana, Tatiana e Cláudia sabem que se trata de Vénus e Júpiter. Quando passava na rua informei dois transeuntes que os dois pontos luminosos não eram estrelas. Teria sido uma boa forma de começar uma conversa com Tatiana que não metesse trocos. "Dizem que a lua é o sorriso e que os olhos são os planetas, Tatiana". E ela: "Eu vejo sorriso de planetas...a lua é a boca."

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