segunda-feira, 26 de abril de 2010

Crónica do Baco 27

Volta a polémica. Pedi ao moço que fizesse uma pesquisa e me trouxesse textos de apoio à tourada. Os textos contra a tourada não me interessam, porque sei que têm razão. O que me interessa é conciliar o meu gosto pelos toiros com a minha razão. Infelizmente, nem um advogado perdido de amores por gente nova me resolve o problema. Sentei a Tatiana, a Herminia e o Inventor e pedi-lhe que revelassem o diz-se disse de Estremoz. Sucede que, para meu espanto e possível salvação, o Inventor disse logo que não falava e trouxe-me toda a correspondência com o advogado que lhe escreve todas as sextas feiras e no meio do lixo habitual descobri uma revista pornográfica da Gina que é um espectáculo. Diz que não é dele e que o advogado tem mais de mil "Ginas"e algumas ainda têm as páginas coladas do tempo em que se masturbava para cima das gajas nuas.Tatiana fala aos berros e não posso revelar pormenores, mas decidi suspender a escrita do Baco durante uns minutos porque ela fala do coveiro que anda metido em controlador de horários e como não posso com a morte nem entro em cemitérios desde o óbito da santa minha querida mãe.... esqueço a história do coveiro. Como não conheço praticamente ninguém em Estremoz, Herminia esforça-se em me explicar quem são as miudas que dormem fora de casa com homens mal casados e sempre me pareceu que o pior exercício da crítica acontece nos reformados de baixa escolaridade. Os críticos como a Tatiana não chegam sequer á lábia dos advogados frustrados. Ela pura e simplesmente não sabe da vida. É claro que a vida da Tatiana é reduzida porque os emigrantes conhecem pouca gente, tal como eu, mas Herminia parece viver dentro da casa das pessoas mais conhecidas da cidade. Até a redaccção de A Bola deve ter menos histórias rocambolescas.
Aproveitarei também para mudar o último terço, que estava em cima da cama. A visita do Papa excita-me , mas tive que mandar calar a Herminia, quando tirou a camisa e roliça, bamboleia as mamas para exemplificar a história do gajo/governante que consegue ser eremita mesmo quando rodeado de pessoas por todos os lados, coisa que admiramos.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Crónica do Baco 26

Por um triz não fiquei agarrado a uma fila de aeroporto. Cheguei. Depois de tanto tempo em Estremoz, sair no espaço de 2 meses, fez-me bem. Primeiro ao Brasil. Agora a Suiça. Hoje inicio uma colaboração com o diz que disse, que deve ser entendida como uma contratação sem fins lucrativos por acordo de ambas as partes entre mim, a Tatiana, a Hermínia, o Inventor e o seu moço de recados. Escreverei notícias sobre o interior, a desertificação, os estranhos sotaques que ainda vão sobrevivendo a anos de actividade parlamentar na capital, concursos de literatura promovidos por autarquias, crimes de enxada, a gente gira dos bairros pobres de estremoz alentejana, ornitologia, caça e pesca, prostíbulos raianos, cromos sem bola, imprensa local, comunidades estrangeiras e música popular. Começo por onde? pergunta-me o inventor. Ao fim de 20 minutos mandei-o parar. Nunca tinha ouvido tanta merda junta.

domingo, 11 de abril de 2010

Crónica do Baco 25

Estou há 14 dias sem me olhar ao espelho. A vida no Brasil tem estas vantagens, não precisamos gostar de nós para que os outros gostem. Voltei hoje á calma de Estremoz sem olhar para o espelho. O encontro acidental com o reflexo da minha imagem na montra da Lavandaria Rosado não conta. Vou esquecendo a cara que tenho e principalmente a que tive para dormir 12 noites com Gina uma baiana do outro mundo. A higiene facial é feita às escuras. Mas creio que nunca tive um ar tão asseado. Em Estremoz faço a barba todos os dias. Arranco com os dedos os pêlos mais compridos das sobrancelhas. A solidão potencia a excentricidade.
Ando há meses nisto. Vou e volto. Da capital para a provincia, mas as razões para morar em Estremoz estão-se a esgotar. Os governantes são uma caca. Poderia abrir um clássico da literatura, mas opto por estes jogos absurdos. Assim vou suportando a solidão. Ao incipiente transtorno de obsessivo-compulsivo que é voltar repetidas vezes a casa, quando já me encontro na rua, para confirmar que fechei o gás, junto comportamentos menos espontâneos e mais criativos, como descer as ruas em slalom lento pelas laranjeiras, pintar os "ós" de todos os editoriais do Ecos e do Brados a esferográfica azul, descascar uma pevide enquanto espero pelo evento cultural do próximo mês (abro um parentsis para dizer que conheci o avozinho que toma conta desse cadinho e estou desesperado) e depois tento encontrar uma sequência de beirais em que o número de ninhos-de-andorinha forme a série de Fibonacci.
O que há de absolutamente assustador nestas práticas reiteradas é a sua eficácia imediata. O momento em si parece que se eterniza, não como se o tempo pesasse, antes como o tempo deixasse de existir. Por isso, nunca me senti tão aborrecido em Estremoz. Mas parece que este efeito se concretiza às custas de a lembrança do passado se comprimir tanto que agora julgo ter chegado a Estremoz há mais dum século. Por isso, tenho deixado de me sentir em paz. Começo mesmo a precisar de reler o que aqui vou escrevendo para ter mão no passado. Os dedos para ver o rosto e os olhos para tactear o tempo. Volto do Brasil e toda a gente me fala do carro novo do presidente. Foda-se quero lá saber dessas minudências. E Tatiana? Diz que não dorme comigo enquanto eu cheirar a preta. Chiça.