domingo, 11 de abril de 2010

Crónica do Baco 25

Estou há 14 dias sem me olhar ao espelho. A vida no Brasil tem estas vantagens, não precisamos gostar de nós para que os outros gostem. Voltei hoje á calma de Estremoz sem olhar para o espelho. O encontro acidental com o reflexo da minha imagem na montra da Lavandaria Rosado não conta. Vou esquecendo a cara que tenho e principalmente a que tive para dormir 12 noites com Gina uma baiana do outro mundo. A higiene facial é feita às escuras. Mas creio que nunca tive um ar tão asseado. Em Estremoz faço a barba todos os dias. Arranco com os dedos os pêlos mais compridos das sobrancelhas. A solidão potencia a excentricidade.
Ando há meses nisto. Vou e volto. Da capital para a provincia, mas as razões para morar em Estremoz estão-se a esgotar. Os governantes são uma caca. Poderia abrir um clássico da literatura, mas opto por estes jogos absurdos. Assim vou suportando a solidão. Ao incipiente transtorno de obsessivo-compulsivo que é voltar repetidas vezes a casa, quando já me encontro na rua, para confirmar que fechei o gás, junto comportamentos menos espontâneos e mais criativos, como descer as ruas em slalom lento pelas laranjeiras, pintar os "ós" de todos os editoriais do Ecos e do Brados a esferográfica azul, descascar uma pevide enquanto espero pelo evento cultural do próximo mês (abro um parentsis para dizer que conheci o avozinho que toma conta desse cadinho e estou desesperado) e depois tento encontrar uma sequência de beirais em que o número de ninhos-de-andorinha forme a série de Fibonacci.
O que há de absolutamente assustador nestas práticas reiteradas é a sua eficácia imediata. O momento em si parece que se eterniza, não como se o tempo pesasse, antes como o tempo deixasse de existir. Por isso, nunca me senti tão aborrecido em Estremoz. Mas parece que este efeito se concretiza às custas de a lembrança do passado se comprimir tanto que agora julgo ter chegado a Estremoz há mais dum século. Por isso, tenho deixado de me sentir em paz. Começo mesmo a precisar de reler o que aqui vou escrevendo para ter mão no passado. Os dedos para ver o rosto e os olhos para tactear o tempo. Volto do Brasil e toda a gente me fala do carro novo do presidente. Foda-se quero lá saber dessas minudências. E Tatiana? Diz que não dorme comigo enquanto eu cheirar a preta. Chiça.

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