Tenho um desprezo quase total pelos politicos. A impressão que fica é de que vale tudo, desde que não se atropele muito a lógica. Acreditamos num líder político se nos disser: "essa medida foi inteligentíssima e eu estou aqui para unir o partido e tal, e depois guardar o seu discurso para os momentos grandes porque vai beneficiar desse efeito galavanizador,".
Os politicos são quase todos mentirosos. Ora imagine que para além de politicos ainda são professores. Foda-se. Não há pachorra!
As pessoas não estão com vontade de ouvir os políticos, muito menos se são professores. Nem é uma novidade. O inventor é que diz, se e´professor e vai para político, tem que ser muito mau professor. Se o público acreditar sempre no que lhe dizem, está assegurado um contraditório que não assenta em qualquer contradição, antes na vontade de dizer sempre alguma coisa, porque terá razão quem fica com a última palavra. É uma regra simples que perpetua esta feira. Tão simples como escrever "Volte, s.f.f" de ambos os lados de uma folha branca, para a tal loira ficar perpetuamente entretida e não aborrecer muito. A loira somos nós.
segunda-feira, 31 de maio de 2010
sábado, 22 de maio de 2010
Crónica do Baco 29
Saí com a máquina fotográfica dentro do estojo para ir fotografar o castelo. Não a torre de menagem, um resto de muralha, sequer uma ameia, mas apenas para observar a parte mais elevada da cidade é assim se referem à zona do reservatório de água com uma área circundante mais ou menos ajardinada. Ali existe uma pérgula com vinha que dá uma sombra agradável e a vista sobre o casario é empolgante, apetece logo conquistar Marrocos (vide Woody Allen). Ainda antes de lá chegar encontrei um velhote num banco de jardim, que mal me viu pegou numa viola campaniça e começou a tocar uma modinha. Pensei que me desafiava para uma desgarrada e sentei-me, com ideias de apenas o ouvir. Assim foi. Depois ele disse qualquer coisa que não percebi bem (é desdentado) e começou a improvisar umas quadras sobre o filho que é trabalhador da autarquia e anda descontente com a mudança de horário. Há poucas coisas neste mundo mais desagradáveis do que ouvir um velho desdentado dar eco ao descontentamento do filho. Mas o velho tinha um instinto melódico apurado, espremeu a língua a dizer mal do gajo que mudou o horário até chegar uma senhora gorda e avantajada, que jurei já ter visto nos cartazes da politica. Disse ela que os gajos não trabalham e quem manda é que pode. Vendida! Disse o velho depois dela abalar. Andou o tocar o bombo por uns e agora mama no tacho já diz que os outros é que o são.
Convidei-o a subir comigo ao castelo, mas creio que me disse já não ter pernas para subir aquela rua. Espero voltar a vê-lo.
Subi a rua íngreme com menos ligeireza. Os anos vão-me tratando bem. Se é verdade que também vão tardando outras coisas, ainda tardam a calvície e a barriga. Já no cimo, batido por uma aragem fresca, um cartaz amarrotado atravessou-se à minha frente. Rodando, galguei o lancil do passeio e fui pela rua direita abaixo, ganhando velocidade até encontrar uma tasca que tresanda a copos de vinho. Julguei ter visto o rosto de um preto numa das suas pontas e lembrei-me de Ricardo Chibanga. Há anos que a imagem de um cartaz alado de Ricardo Chibanga me persegue, ora descolando-se, ora indo do chão para a parede, como numa sequência com a seta do tempo invertida. No cartaz desta manhã havia um preto, quase juro, mas não o Chibanga; seria por certo uma estrela de hip-hop. Diz a Hermínia que as estrelas do ídolos levaram o dinheiro todo de Estremoz....
Aguentei-me no castelo até quase ao meio-dia, estudando Villa-Lobos. Depois começou a fazer muito calor, mesmo à sombra.
Fiquei em casa a ler durante a tarde até o Luís me telefonar a informar que ia ao S.Romão. Onde? Ao S. Romão!
Já sei que ele virá em mau estado, por isso recuso e virei-me para a música. O meu irmão deixou-me a guitarra, o computador, roupa e três caixotes com livros. Tenho 12 metros de prateleiras em casa para que preciso do pó e vinho?. Quanto tempo preciso de ficar aqui até ter lido 12 metros de lombadas? Comecei pelo Crimes Exemplares, de Max Aub. É o exemplo acabado de como um conjunto de boas histórias não é suficiente para fazer um bom livro. Como quase todas seguem a mesma estrutura, Aub não se limita a destruir a tensão do policial, consegue mesmo aborrecer. Julga que banalizar o crime mais horrendo chega para seduzir o leitor e aplica a fórmula ad nauseam, mas o que o leitor interioriza não é a banalização do crime horrendo, é a banalização do método de Aub. Enfim, antes sacrificar um autor do que inocentes às mãos de um eventual leitor perturbado pelo génio do escritor. Como se não bastasse a rigidez estrutural, Aub tem insuficientes obsessões para diversificar as histórias. Quantos criminosos por intolerância com a falta de pontualidade estamos dispostos a aturar? Ainda menos do que os criminosos que não toleram gente palradora. Parece que este é um livro de culto, mas há cultos que não se entendem. Em todo o caso, perfiz 2 cm.
Convidei-o a subir comigo ao castelo, mas creio que me disse já não ter pernas para subir aquela rua. Espero voltar a vê-lo.
Subi a rua íngreme com menos ligeireza. Os anos vão-me tratando bem. Se é verdade que também vão tardando outras coisas, ainda tardam a calvície e a barriga. Já no cimo, batido por uma aragem fresca, um cartaz amarrotado atravessou-se à minha frente. Rodando, galguei o lancil do passeio e fui pela rua direita abaixo, ganhando velocidade até encontrar uma tasca que tresanda a copos de vinho. Julguei ter visto o rosto de um preto numa das suas pontas e lembrei-me de Ricardo Chibanga. Há anos que a imagem de um cartaz alado de Ricardo Chibanga me persegue, ora descolando-se, ora indo do chão para a parede, como numa sequência com a seta do tempo invertida. No cartaz desta manhã havia um preto, quase juro, mas não o Chibanga; seria por certo uma estrela de hip-hop. Diz a Hermínia que as estrelas do ídolos levaram o dinheiro todo de Estremoz....
Aguentei-me no castelo até quase ao meio-dia, estudando Villa-Lobos. Depois começou a fazer muito calor, mesmo à sombra.
Fiquei em casa a ler durante a tarde até o Luís me telefonar a informar que ia ao S.Romão. Onde? Ao S. Romão!
Já sei que ele virá em mau estado, por isso recuso e virei-me para a música. O meu irmão deixou-me a guitarra, o computador, roupa e três caixotes com livros. Tenho 12 metros de prateleiras em casa para que preciso do pó e vinho?. Quanto tempo preciso de ficar aqui até ter lido 12 metros de lombadas? Comecei pelo Crimes Exemplares, de Max Aub. É o exemplo acabado de como um conjunto de boas histórias não é suficiente para fazer um bom livro. Como quase todas seguem a mesma estrutura, Aub não se limita a destruir a tensão do policial, consegue mesmo aborrecer. Julga que banalizar o crime mais horrendo chega para seduzir o leitor e aplica a fórmula ad nauseam, mas o que o leitor interioriza não é a banalização do crime horrendo, é a banalização do método de Aub. Enfim, antes sacrificar um autor do que inocentes às mãos de um eventual leitor perturbado pelo génio do escritor. Como se não bastasse a rigidez estrutural, Aub tem insuficientes obsessões para diversificar as histórias. Quantos criminosos por intolerância com a falta de pontualidade estamos dispostos a aturar? Ainda menos do que os criminosos que não toleram gente palradora. Parece que este é um livro de culto, mas há cultos que não se entendem. Em todo o caso, perfiz 2 cm.
domingo, 16 de maio de 2010
Crónica do Baco 28
Apesar da existência frugal dos haveres da querida mamã, a minha conta bancária está a entrar no vermelho depois de 2 semanas instalado em Fátima. Sucede que, para meu espanto e possível salvação não estive em Estremoz nos últimos onde decorreu uma Feira Internacional (como diz a Tatiana). João Paulo II a um piqueno passo é o mesmo que partilhar o ar que Bento XVI respirou em Fátima. Sei bem que a fronteira entre a ficção e a realidade é por vezes ténue, mas eu estou demasiado gordo para fazer strip-teases morais à frente de tanta gente e regressei ao santuário com mais fé do que antigamente. Beijar as mãos do Santo Padre não se concretizou por manifesta megalomania.
No final da missa houve um pequeno incidente: uma das libertinas de Lisboa levantou-se e quis contar-nos a história de um familiar estremocense, que, depois de mudar de vida, terá comido e bebido em excesso e foi transportado ao hospital para ser socorrido, pelo caminho a revolução nos intestinos falou mais alto e borrou-se pelas pernas no carro presidencial. Ninguém da hierarquia papal achou piada ao relato da libertina que mais parecia ter transposto fronteiras à paisana com a ideia fixa de assassinar Manfred Albrecht Freiherr von Richthofen, o Barão Vermelho, para assim vingar o seu pai, que integrou o Corpo Expedicionário Português e terá morrido na batalha de la Lys, a 9 de Abril de 1918.
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