domingo, 31 de outubro de 2010
Crónica do Baco 42
O pior momento do dia de um deprimido é a manhã. Isto é algo paradoxal, porque à medida que a vida decorre, isto é, que o dia avança, o deprimido melhora a sua condição. Foda-se eu já estava deprimido ... mas dar de trombas com um gajo daqueles com o cu na melhor pousada do país, deprime até a Lady Gaga.. Parece que viver, afinal, não é assim tão mau e que o difícil é o arranque da entrevista .... O paralelo com o jornalista é óbvio: quanto menos embalada for a bicicleta, mais difícil é manter o equilíbrio da espinha- mas isto é só uma comparação e as comparações estão para as explicações como as correlações para a causalidade. Enfim, o que queria dizer é muito simples: ao acordar, o deprimido deve de imediato criar uma situação de vida. Idealmente, o deprimido acordaria convencido de que o prédio está em chamas ou que tem um tigre da Sibéria entre os lençóis, mas também serve um gole de gaspacho suficientemente acondimentado para o transportar até ao calor de um começo de tarde. O importante é evitar o leite, o café e os cereais. Tentem antes marisco, se não gostam de gaspacho. O importante é não terminar o dia sóbrio. Merda .... experimentem falar para o microfone babando cerveja ....
domingo, 17 de outubro de 2010
Crónica do Baco 41
Sonhei que urinava contra uma parede, vestido de luzes, e que alguém se aproximava de mim para conviver urinando. Entabulámos uma conversa demasiado longa para o volume das nossas bexigas, mas a urina parecia vir directamente do reservatório de água de Borba, pois não havia forma de acabar. Se fosse do reservatório de Estremoz, nem chegávamos a mijar....
A dada altura faltou-nos assunto, o gajo que estava a urinar começou a desenhar os círculos dos Jogos Olímpicos no chão de terra e eu, que topara a ideia ainda ele não havia acabado o segundo circulo dos de cima, comecei logo a fazer os dois da parte inferior. Quando ele concluía o seu terceiro e eu o meu segundo, a nossa urina cruzou-se pela primeira vez. Foi apenas um instante e a trajectória da urina de um e outro quase não sofreu desvio, só que eu senti uma impressão - coisa psicossomática - e o piqueno também ficou perturbado. Logo a urina de ambos deixou de jorrar e nos despedimos atabalhoadamente, indo cada um para seu lado. O símbolo dos Jogos Olímpicos ficou incompleto e o rafeiro da protecção civil que depois passou por lá apenas esgravatou um dos círculos. Não arrisco uma interpretação deste sonho...
Acordei. A manhã está a ser fértil em versos avulsos para Tatiana e Herminia. Tomei algumas notas de guitarra sobre a perna, numa lógica de preenchimento futuro dos espaços em branco, que se aproxima muito da minha anterior forma de viver. Entretanto corrigi alguns plurais, para evitar uma rima e diminuir as chiantes suaves, um som que é inimigo das melodias. Sinto que esta canção entrou finalmente numa dinâmica de vitória. Foram precisos meses, mas o binómio talento-suor não capta o que aqui se passou. O que houve foi paciência. Aprendi uma lição. Em Estremoz quando dormimos o melhor é fingir que estamos a sonhar. Foda-se!
A dada altura faltou-nos assunto, o gajo que estava a urinar começou a desenhar os círculos dos Jogos Olímpicos no chão de terra e eu, que topara a ideia ainda ele não havia acabado o segundo circulo dos de cima, comecei logo a fazer os dois da parte inferior. Quando ele concluía o seu terceiro e eu o meu segundo, a nossa urina cruzou-se pela primeira vez. Foi apenas um instante e a trajectória da urina de um e outro quase não sofreu desvio, só que eu senti uma impressão - coisa psicossomática - e o piqueno também ficou perturbado. Logo a urina de ambos deixou de jorrar e nos despedimos atabalhoadamente, indo cada um para seu lado. O símbolo dos Jogos Olímpicos ficou incompleto e o rafeiro da protecção civil que depois passou por lá apenas esgravatou um dos círculos. Não arrisco uma interpretação deste sonho...
Acordei. A manhã está a ser fértil em versos avulsos para Tatiana e Herminia. Tomei algumas notas de guitarra sobre a perna, numa lógica de preenchimento futuro dos espaços em branco, que se aproxima muito da minha anterior forma de viver. Entretanto corrigi alguns plurais, para evitar uma rima e diminuir as chiantes suaves, um som que é inimigo das melodias. Sinto que esta canção entrou finalmente numa dinâmica de vitória. Foram precisos meses, mas o binómio talento-suor não capta o que aqui se passou. O que houve foi paciência. Aprendi uma lição. Em Estremoz quando dormimos o melhor é fingir que estamos a sonhar. Foda-se!
sábado, 9 de outubro de 2010
Crónica do Baco 40
Regressei do monte à boleia. Agora que a chuva voltou, sinto orgulho nos meus tupperwares. Também sinto orgulho da minha ausência de vida nesta cidade, inclusive no Verão. Seria muito fácil enlouquecer em Estremoz, mas tenho a certeza de que tal nunca sucederá. A cultura virou coltura mas em Lisboa era ao contrário. Parecia difícil ficar louco por lá, mas comecei a desconfiar que era só uma questão de tempo. Estremoz salvou-me. Mas agora está-me a põr doente. Foda-se aqui deixou de acontecer, como verbalizaria o Carlos Pinto Coelho....
Regressei ontem a Zafra, pela mão, foda-se digo pelo carro de dois amigos. Ludibriei a Herminia dizendo que ía a um velório a Badajoz e confiei no corrimão verde, saltei a cancela. Percorri o chão de tijoleira sob o alpendre sem hesitar, mas estanquei diante da porta. Foi a um fim de tarde, tinha o poente pelas costas. A luz era a mais reconfortante de todas, uma luz quente que nunca aparece nas cenas de terror. Mas nem assim fui capaz de entrar na casa das putas em Badajoz. Estes gajos dizem que vão a um velório e enfiam-se na primeira casa de gajas que conhecem. Mierda!
Não tive medo que lá dentro o soalho cedesse, nem dos bichos que entretanto se terão instalado, nem de um improvável vagabundo, nem de confrontar as memórias com o lugar. Tive medo de encontrar a minha avó e de ela querer cobrar-me pela vez em que, por acidente, a derrubei. Foi a única interacção que tive com ela, pois sempre a conheci doente.
Regressei ontem a Zafra, pela mão, foda-se digo pelo carro de dois amigos. Ludibriei a Herminia dizendo que ía a um velório a Badajoz e confiei no corrimão verde, saltei a cancela. Percorri o chão de tijoleira sob o alpendre sem hesitar, mas estanquei diante da porta. Foi a um fim de tarde, tinha o poente pelas costas. A luz era a mais reconfortante de todas, uma luz quente que nunca aparece nas cenas de terror. Mas nem assim fui capaz de entrar na casa das putas em Badajoz. Estes gajos dizem que vão a um velório e enfiam-se na primeira casa de gajas que conhecem. Mierda!
Não tive medo que lá dentro o soalho cedesse, nem dos bichos que entretanto se terão instalado, nem de um improvável vagabundo, nem de confrontar as memórias com o lugar. Tive medo de encontrar a minha avó e de ela querer cobrar-me pela vez em que, por acidente, a derrubei. Foi a única interacção que tive com ela, pois sempre a conheci doente.
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