domingo, 20 de dezembro de 2009
Crónica do Baco 8
As traseiras da casa abriam para o nosso quintal que o avô alugara o lugar ao Badalo, que aí fizera uns quartos de dormir clandestinos. O arquitecto não autorizou, o vereador também nada mandava e tudo ficou por fazer. Mesmo assim ia lá quase todos os dias. O álibi era a compra de saquinhos de pevides e o móbil coisa distinta: calendários de mulheres nuas forravam uma das paredes e naquele tempo o uso do silicone não estava generalizado, a única coisa estofada na parede era só mesmo uma enorme cabeça de touro embalsamado, pelo que as mamas ainda não tendiam para uma deprimente uniformização e cada rapariga oferecia a sua idiossincrasia com merecido orgulho. Hoje ouvi dizer que o arquitecto já basou já podemos fazer a obra mas as gajas e as mamas já não moram lá. Foda-se é curioso isto de a beleza ser a qualidade que mais ostensivamente despreza a lógica da meritocracia. Esforço-me por recordar as caras daquelas mulheres. Abril de 1977? Julho de 1978? Dezembro de 1979? Nada. Nem a Páscoa, nem o Verão, nem o Natal. Fevereiro de 1980? Nem sequer o Natal. Como será este Natal em Estremoz? Esforço-me também por recordar as mamas propriamente ditas. Outra vez e nada.
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