terça-feira, 29 de dezembro de 2009
Crónica do Baco 9
Leitura do jornal no café do quartel dos bombeiros, depois de almoçar um litro de gaspacho. Um rapaz de 19 anos matou a namorada à facada e eu continuo a pasmar. O crime passional, como um cúmulo de egoísmo e estupidez, não deve gozar de tolerância social e eventualmente até jurídica. Num mundo imperfeito e justo, matar a mulher seria mais grave do que matar a namorada, que seria mais grave do que matar a amiga, que seria mais grave do que matar uma desconhecida. Ora, parece que é ao contrário. Daqui até avisto o edifício vermelho do Mercado. Porra! Suspeito que grande parte do dinheiro que gastámos naquela merda está a apodrecer enquanto as ratazanas passeiam por cima da fruta nas barracas frente à Câmara. Não acho que se possa fazer algo para atenuar a raiva e a frustração, mas talvez se possa atenuar a surpresa. Mas como se explica isto às pessoas, sobretudo num país sem tradição de fortune cookies?
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
domingo, 20 de dezembro de 2009
Crónica do Baco 8
As traseiras da casa abriam para o nosso quintal que o avô alugara o lugar ao Badalo, que aí fizera uns quartos de dormir clandestinos. O arquitecto não autorizou, o vereador também nada mandava e tudo ficou por fazer. Mesmo assim ia lá quase todos os dias. O álibi era a compra de saquinhos de pevides e o móbil coisa distinta: calendários de mulheres nuas forravam uma das paredes e naquele tempo o uso do silicone não estava generalizado, a única coisa estofada na parede era só mesmo uma enorme cabeça de touro embalsamado, pelo que as mamas ainda não tendiam para uma deprimente uniformização e cada rapariga oferecia a sua idiossincrasia com merecido orgulho. Hoje ouvi dizer que o arquitecto já basou já podemos fazer a obra mas as gajas e as mamas já não moram lá. Foda-se é curioso isto de a beleza ser a qualidade que mais ostensivamente despreza a lógica da meritocracia. Esforço-me por recordar as caras daquelas mulheres. Abril de 1977? Julho de 1978? Dezembro de 1979? Nada. Nem a Páscoa, nem o Verão, nem o Natal. Fevereiro de 1980? Nem sequer o Natal. Como será este Natal em Estremoz? Esforço-me também por recordar as mamas propriamente ditas. Outra vez e nada.
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
Crónica do Baco 7
Deixei de trabalhar, mas por atavismo guardei o domingo passado para um passeio de BTT pelo campo. Ainda não tenho a ambicionada motocicleta e fui a pedalar até umas terras da família perto da Serra d’Ossa. Creio ter descoberto o local ideal para concretizar o meu plano pessoal de leitura: a sombra do frondoso castanheiro, a única árvove estrangeira daqui até ao Redondo. Fica perto de uma horta ao abandono e de um poço também abandonado, que nunca secou. É desta que conquisto a Rússia. Com os subsídios da malta dos tiros a estrada do Redondo ganhou mais fastio.
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Crónica do Baco 6
Os meus pais sabem que vim para Estremoz mas desconhecem onde conto passar o Verão e que me despedi do emprego. Os meus colegas sabem que me despedi e nada mais. A alguns amigos disse para onde vinha, sem acrescentar que me despedi. Não menti, nem sequer por omissão, a verdade ficou foi fragmentada. Sobra o meu irmão, omnisciente, não vá eu precisar de uma testemunha que me convença desta opção de vida. Mas sei que ele só cometeria uma inconfidência em caso de risco de morte e não é por se vir morar uns meses aqui que um tipo se sente devedor das estatísticas do suicídio no Alentejo. Sobretudo porque o restaurante O Águias d’Ouro, que apenas recordava como um antro pejado de taxidermia, serve hoje um gaspacho competente e também porque não há pathos, spleen, gravitas, remorso ou frustração capaz de me deixar indiferente ao par de mamas das tias que teimosamente se sentam na esplanada, a uns metros de distância, fumando cigarros de carteiras vazias. Anunciam as festas da Cidade. Festas? Outra promessa de futuro dos “irmãozinhos”!
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