Esta noite, em casa do inventor, deu-se uma daquelas coincidências órfãs de plateia, isto é, que dizem algo apenas à pessoa que as experimenta, sem que adiante estar a fornecer aos outros todos os elementos que julgamos necessários e suficientes para partilhar o espanto. Dizia o inventor : esta terra é tão poucochinha que até o teatro fechou. Naturalmente, poupar-vos-ei aqui o tal proselitismo do artista e o que se segue apenas me serve.
Fechou? perguntou o inventor com cara de poucos amigos. Pois que se foda!! Quanto mais conheço os homens mais gosto dos cães. Fechem tudo e vendam aos espanhóis...
O meu eremitismo ficou agora ferido de morte; se sobre o fecho do teatro nunca chegou a pairar a sombra do ciúme (nunca lá entrei, mas dizem que é maravilhoso), paira agora, monstruosa, a sombra de vender "isto" aos espanhóis; adio o livro dos russos que ando a ler, que a minha vida hoje é limpar o chão da cozinha dos cagalhotos da Maria (a minha gata). Mas aceito por fim que um cão que cai dum escadote desperta no dono sensações mais ricas do que um cágado. Não falo de cor. Tive um desses répteis em criança, de resto um cágado alentejano apanhado na ribeira de Tera pelo meu tio e levado depois para Lisboa. O animal desapareceu tragicamente - queda da varanda - e nunca mais foi encontrado, nunca se fez o seu luto. Poderia ainda pairar nos meus sonhos, como pairam por aí Elvis, Morrison, Maddie, não fosse a Tatiana ter dado com ele debaixo do cesto da roupa suja, vai para dois meses. Desgraçado!
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