Há pessoas que cumprimentamos sempre e pessoas que nunca cumprimentamos. Trivial. Mas há também pessoas que cumprimentamos ou não em função do contexto. Reconhecê-lo não é uma admissão de hipocrisia ou de cobardia. Evitar certas pessoas em certos contextos pode ser um acto de altruísmo (quando não se quer complicar a vida do outro) ou de modéstia (quando se pensa que o outro não se lembra de nós), ainda que sempre assente num infundado optimismo (por implicar pensar que ninguém nos viu). Estas são situações exclusivas das grandes metrópoles e impensáveis em Estremoz. Não que falte por aqui a complexidade arquitectónica e vivencial para gerar tais contextos - raios, temos cafés e esquinas. O que distingue Estremoz é a pequenez da sua teia social. Aqui ninguém se pode dar ao luxo de decidir um cumprimento em função do momento, sob pena de transmitir uma vibração que se propagaria por toda a parte e chegaria a todos, inclusive à menina da revista porno.
Na quinta feira pretérita levaram-me a ver um certame interessante e inédito, nas palavras de Mariano o meu companheiro, que em tempos caçou com o tio e com o pai na herdade perto de Monforte, eu teria que falar a toda a gente. Na Festa das Escolas, uma coisa deprimente e vadia por onde circulam e ululam crianças malcriadas e barulhentas, eu não conheci ninguém e passei incólume no inexistente protocolo, porque ninguém me conhece, porra como quer voçê que eu fale a toda a gente, se ninguém me conhece, vociferei eu com Mariano....
Quase todas as grandes ideias que fizeram a cultura e a educação foram geradas por pessoas com mais de 40 anos. Foda-se como podem meter crianças a tomar conta de si mesmo numa enormidade de espaço. Não vou fazer as contas, é uma conclusão a que chego pela conjugação de uma série de informações díspares que o Mariano me deu. Só assim se explica que ninguém ainda tenha proposto a seguinte explicação para a invenção do fogo ou, para ser mais rigoroso, para o domínio do fogo pelo homem: o fogo foi criado para vencer a desorganização. Mais valia ter ardido tudo!
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