domingo, 14 de março de 2010

Crónica do Baco 22

O que faz mesmo falta aqui é uma rede de transportes públicos. Mas Estremoz é uma cidade órfã de cultura o que me entristece. Se ter um excêntrico à frente dos destinos de um país seria trágico, o desaparecimento dos autarcas excêntricos será empobrecedor. As iniciativas culturais também se fazem à custa das idiossincrasias dos localmente poderosos mas aqui é o tédio completo. Aliás, com tantas normas, directivas não admira que o teatro local tenha fechado. Foi das formigas diz a Hermínia que parece saber tudo, mas eu sei que o monopólio da telha e do cimento conduz ao aumento de um nível de cultura que só os matarroanos conhecem. A vida em Estremoz que concomitantemente normaliza os anseios dos locais só é possivel porque alguns tendem para a homogeneidade e serão daqui a 10 anos manchas isoladas ....
Resta a promoção de novas especificidades regionais. Ora, a melhor fonte de diversidade ainda é a cabeça dos indivíduos. Daí a necessidade de dar poder aos mandantes. Um poder absoluto, centralizado num único indivíduo e sem conselho, comissão ou oposição que lhe seque a veia criativa. Sim, agora que deixei de votar e não me sinto com grandes obrigações de cidadania, posso confessar que gostaria de ter em Estremoz um tiranete com ideias megalómanas. Talvez seja essa a única forma de se construir aqui uma linha de metropolitano com duas únicas paragens: chegada e partida de Badajoz, junto á Calle del Burro. É que de todos os rostos anónimos que fui observando na passagem de modelos de ontem á noite, só tenho mesmo saudades de alguns rostos vistos nos transportes públicos de Lisboa. Não é a lei dos grandes números que explica esta impressão. Há uma qualidade específica dos rostos nos transportes públicos que não encontramos em mais nenhum lugar ou circunstância. É só isso que falta a Estremoz, para ser uma aldeia interessante.

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