terça-feira, 2 de março de 2010
Crónica do Baco 20
Há dias que não vejo Tatiana e não toma forma a escultura nua que estou a fazer. O que temos, feitas as contas, é um nariz. Como explicar esta falta de empreendedorismo? Não excluindo que se trate de preguiça, creio que há duas pressões para adiar a materialização de Tatiana. A primeira: a chuva abundante que cai em Estremoz é um modo de evitar um compromisso. Se cai muita , não falta água logo não tenho compromissos. A segunda: é a única forma de não contaminar Tatiana com imagens do passado pouco neutras. De algum modo, esta segunda pressão acentuou-se em Estremoz. É verdade que uns meses de isolamento bastam para se regressar a um estado livre de qualquer paixão, mas a vivência na vila é também muito pobre nos estímulos quotidianos que teriam ajudado a reconstruir a matéria-prima de imagens necessária para compor Tatiana e um novo imaginário erótico. A ideia de que no interior do país se encontram belas moças de fartos seios à janela é uma falsidade alimentada pelos estereótipos das fantasias sexuais sulistas (a loira espojada sobre fardos de palha, receptiva e expectante) e esmagada por uma pirâmide etária que há muito se inverteu. É só magricelas, macilentas de cabelo gorduroso. Nem mesmo a minha gatinha Tânia que por aqui passou há uns meses me excita, e foi provavelmente uma alucinação. Perante este quadro, ainda há umas fugas do passado, que se insinuam quando menos esperava ou então quando seria inevitável. Estes episódios rareiam como rareiam os advogados e procuro recorrer a tais imagens segundo um sistema de rotatividade que impede qualquer primazia. Ainda assim, Tatiana não precisa de ficar com marcas no corpo destes vícios esporádicos. Frankenstein, por mais monstruoso que fosse, usou cadáveres anónimos para a sua composição. Daí a importância dos estímulos ocasionais, tão raros em Estremoz. Sobra o mercado local claro, mas isso seria construir Tatiana a partir de materiais pré-fabricados. Uma coisa deprimente, terceiromundista, com barracas, velhas desbocadas e ratazanas pestilentas. É preciso paciência. O nariz já está, o resto aparecerá um dia, com a simplicidade do escultor que apenas disse ter tirado do bloco de mármore tudo o que estava a mais.
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