sábado, 20 de março de 2010

Crónica do Baco 23

Pela segunda vez desde que estou em Estremoz, voltei conduzir e pensei fazer esta viagem com umas sete ou oito pessoas diferentes. É mania que dura há anos, talvez desde o Thelma & Louise. A primeira vez que peguei no carro tive uma má experiência porque coincidiu com um inarrável momento de filas de trânsito na cercania do centro de saúde local e jurei para nunca mais. Mais tarde Tatiana explicou-me que as mamãs da cidade têm a impressão que é fino levar os reguilas ao liceu e que congestionam o trânsito três vezes ao dia. Pedi á Herminia que me dissesse a que horas podia sair, se bem que não tenha vontade de voltar a pé ou de carro aquele inferno de latas rodantes que me fez recordar a minha cidade nas horas de ponta.
De modo que a minha segunda aventura rodoviária asemelhava-se assim ao filme em que a parceira foi Geena Davis, só que a moça depois cresceu um bocadinho demais e para todos os lados, como se um soprador de vidro a tivesse insuflado pelo umbigo. A Herminia disse logo que eu parecia o presidente da junta dela que foi para a autarquia e não para de engordar. Logo a troquei pelos meus amigos. Não suporto esta mulher . S., T., H., acompanharam-me até ao carro mas depois de iniciar nas primeiras manobras olhei para os bancos de trás e.... Ninguém. É difícil sincronizar o desejo e poupem-me ao exemplo do orgasmo simultâneo, esse truque fácil para o reforço da empatia. Sobrei eu e o carro. Fui passeá-lo ontem de madrugada. Fiz a volta do Rocio com o vidro aberto, gozando no rosto a aceleração aparente desta atmosfera quente e estagnada. As superfícies metálicas, como os corpos suados, gozam da propriedade ambígua que é rechaçar a luz deixando marca. São reflexos com direito de autor. Relembro-o por causa dos anúncios da politica que mal deixam ver o cruzamento seguinte que não estão em bom lugar. Fizeram-me lembrar o cartaz gigantesco da Coca-cola em letras encarnadas de néon do outro lado do rio, na fronteira entre Queens e Brooklyn, que não passa cartão aos táxis amarelos nem às arestas da carroçaria da minha viatura, mesmo se o East River - não sendo um rio - é caudaloso e em tempos quase afogou um surfista australiano (factual).
A cidade de Estremoz muda quando se guia, o que ontem aconteceu pela segunda vez em 5 anos. Na primeira, andei por aí com uma carrinha de mudanças desconjuntada que fui buscar ao Harlem. Agora foi de Renault Megane. Dá ares de sonho americano, só que é tudo uma ilusão, como ilusório parece ser arrumar o carro na zona industrial, uma zona da cidade que só atrai mosquitos e ratos durante a noite mas que deve ter moradores em número suficiente para saturar os lugares de estacionamento durante o dia (penso eu). Ignoro se a regra de ter de mudar o carro de sítio todos os dias ou ao segundo dia ainda existe, mas às duas da madrugada as ruas estavam vazias e não havia movimento nenhum. Voltei a casa sem sair do carro. Enfim, serviu o passeio para me acostumar ao bicho, tomar-lhe as medidas. Ganhei o golpe de vista necessário e experimentei no fim um certo orgulho por não o ter riscado o meu Renault presidencial, sobretudo porque me cruzei com vários jovens das freguesias rurais, aos quais obviamente não liguei. Quem conduz um carro destes e ainda por cima pela segunda vez na cidade de Estremoz, não pode tirar os olhos do painel de instrumentos. Já em casa, não resisti a descer à rua uma última vez, sob pretexto de verificar se havia recolhido o espelho reflector. O que queria era sentir a máquina mais uma vez. Coloquei as mãos perto motor, senti um vestígio de trepidação e a chapa morna. O bicho parecia um mamífero de verdade.

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