domingo, 28 de março de 2010

Crónica do Baco 24

Há pessoas que cumprimentamos sempre e pessoas que nunca cumprimentamos. Trivial. Mas há também pessoas que cumprimentamos ou não em função do contexto. Reconhecê-lo não é uma admissão de hipocrisia ou de cobardia. Evitar certas pessoas em certos contextos pode ser um acto de altruísmo (quando não se quer complicar a vida do outro) ou de modéstia (quando se pensa que o outro não se lembra de nós), ainda que sempre assente num infundado optimismo (por implicar pensar que ninguém nos viu). Estas são situações exclusivas das grandes metrópoles e impensáveis em Estremoz. Não que falte por aqui a complexidade arquitectónica e vivencial para gerar tais contextos - raios, temos cafés e esquinas. O que distingue Estremoz é a pequenez da sua teia social. Aqui ninguém se pode dar ao luxo de decidir um cumprimento em função do momento, sob pena de transmitir uma vibração que se propagaria por toda a parte e chegaria a todos, inclusive à menina da revista porno.
Na quinta feira pretérita levaram-me a ver um certame interessante e inédito, nas palavras de Mariano o meu companheiro, que em tempos caçou com o tio e com o pai na herdade perto de Monforte, eu teria que falar a toda a gente. Na Festa das Escolas, uma coisa deprimente e vadia por onde circulam e ululam crianças malcriadas e barulhentas, eu não conheci ninguém e passei incólume no inexistente protocolo, porque ninguém me conhece, porra como quer voçê que eu fale a toda a gente, se ninguém me conhece, vociferei eu com Mariano....
Quase todas as grandes ideias que fizeram a cultura e a educação foram geradas por pessoas com mais de 40 anos. Foda-se como podem meter crianças a tomar conta de si mesmo numa enormidade de espaço. Não vou fazer as contas, é uma conclusão a que chego pela conjugação de uma série de informações díspares que o Mariano me deu. Só assim se explica que ninguém ainda tenha proposto a seguinte explicação para a invenção do fogo ou, para ser mais rigoroso, para o domínio do fogo pelo homem: o fogo foi criado para vencer a desorganização. Mais valia ter ardido tudo!

sábado, 20 de março de 2010

Crónica do Baco 23

Pela segunda vez desde que estou em Estremoz, voltei conduzir e pensei fazer esta viagem com umas sete ou oito pessoas diferentes. É mania que dura há anos, talvez desde o Thelma & Louise. A primeira vez que peguei no carro tive uma má experiência porque coincidiu com um inarrável momento de filas de trânsito na cercania do centro de saúde local e jurei para nunca mais. Mais tarde Tatiana explicou-me que as mamãs da cidade têm a impressão que é fino levar os reguilas ao liceu e que congestionam o trânsito três vezes ao dia. Pedi á Herminia que me dissesse a que horas podia sair, se bem que não tenha vontade de voltar a pé ou de carro aquele inferno de latas rodantes que me fez recordar a minha cidade nas horas de ponta.
De modo que a minha segunda aventura rodoviária asemelhava-se assim ao filme em que a parceira foi Geena Davis, só que a moça depois cresceu um bocadinho demais e para todos os lados, como se um soprador de vidro a tivesse insuflado pelo umbigo. A Herminia disse logo que eu parecia o presidente da junta dela que foi para a autarquia e não para de engordar. Logo a troquei pelos meus amigos. Não suporto esta mulher . S., T., H., acompanharam-me até ao carro mas depois de iniciar nas primeiras manobras olhei para os bancos de trás e.... Ninguém. É difícil sincronizar o desejo e poupem-me ao exemplo do orgasmo simultâneo, esse truque fácil para o reforço da empatia. Sobrei eu e o carro. Fui passeá-lo ontem de madrugada. Fiz a volta do Rocio com o vidro aberto, gozando no rosto a aceleração aparente desta atmosfera quente e estagnada. As superfícies metálicas, como os corpos suados, gozam da propriedade ambígua que é rechaçar a luz deixando marca. São reflexos com direito de autor. Relembro-o por causa dos anúncios da politica que mal deixam ver o cruzamento seguinte que não estão em bom lugar. Fizeram-me lembrar o cartaz gigantesco da Coca-cola em letras encarnadas de néon do outro lado do rio, na fronteira entre Queens e Brooklyn, que não passa cartão aos táxis amarelos nem às arestas da carroçaria da minha viatura, mesmo se o East River - não sendo um rio - é caudaloso e em tempos quase afogou um surfista australiano (factual).
A cidade de Estremoz muda quando se guia, o que ontem aconteceu pela segunda vez em 5 anos. Na primeira, andei por aí com uma carrinha de mudanças desconjuntada que fui buscar ao Harlem. Agora foi de Renault Megane. Dá ares de sonho americano, só que é tudo uma ilusão, como ilusório parece ser arrumar o carro na zona industrial, uma zona da cidade que só atrai mosquitos e ratos durante a noite mas que deve ter moradores em número suficiente para saturar os lugares de estacionamento durante o dia (penso eu). Ignoro se a regra de ter de mudar o carro de sítio todos os dias ou ao segundo dia ainda existe, mas às duas da madrugada as ruas estavam vazias e não havia movimento nenhum. Voltei a casa sem sair do carro. Enfim, serviu o passeio para me acostumar ao bicho, tomar-lhe as medidas. Ganhei o golpe de vista necessário e experimentei no fim um certo orgulho por não o ter riscado o meu Renault presidencial, sobretudo porque me cruzei com vários jovens das freguesias rurais, aos quais obviamente não liguei. Quem conduz um carro destes e ainda por cima pela segunda vez na cidade de Estremoz, não pode tirar os olhos do painel de instrumentos. Já em casa, não resisti a descer à rua uma última vez, sob pretexto de verificar se havia recolhido o espelho reflector. O que queria era sentir a máquina mais uma vez. Coloquei as mãos perto motor, senti um vestígio de trepidação e a chapa morna. O bicho parecia um mamífero de verdade.

domingo, 14 de março de 2010

Crónica do Baco 22

O que faz mesmo falta aqui é uma rede de transportes públicos. Mas Estremoz é uma cidade órfã de cultura o que me entristece. Se ter um excêntrico à frente dos destinos de um país seria trágico, o desaparecimento dos autarcas excêntricos será empobrecedor. As iniciativas culturais também se fazem à custa das idiossincrasias dos localmente poderosos mas aqui é o tédio completo. Aliás, com tantas normas, directivas não admira que o teatro local tenha fechado. Foi das formigas diz a Hermínia que parece saber tudo, mas eu sei que o monopólio da telha e do cimento conduz ao aumento de um nível de cultura que só os matarroanos conhecem. A vida em Estremoz que concomitantemente normaliza os anseios dos locais só é possivel porque alguns tendem para a homogeneidade e serão daqui a 10 anos manchas isoladas ....
Resta a promoção de novas especificidades regionais. Ora, a melhor fonte de diversidade ainda é a cabeça dos indivíduos. Daí a necessidade de dar poder aos mandantes. Um poder absoluto, centralizado num único indivíduo e sem conselho, comissão ou oposição que lhe seque a veia criativa. Sim, agora que deixei de votar e não me sinto com grandes obrigações de cidadania, posso confessar que gostaria de ter em Estremoz um tiranete com ideias megalómanas. Talvez seja essa a única forma de se construir aqui uma linha de metropolitano com duas únicas paragens: chegada e partida de Badajoz, junto á Calle del Burro. É que de todos os rostos anónimos que fui observando na passagem de modelos de ontem á noite, só tenho mesmo saudades de alguns rostos vistos nos transportes públicos de Lisboa. Não é a lei dos grandes números que explica esta impressão. Há uma qualidade específica dos rostos nos transportes públicos que não encontramos em mais nenhum lugar ou circunstância. É só isso que falta a Estremoz, para ser uma aldeia interessante.

sábado, 6 de março de 2010

Crónica do Baco 21

Há uns dias, um novo jantar em casa do inventor trouxe mais uma surpresa desde que estou em Estremoz: Parece que existe uma rádio local! A Hermínia bem que me azucrinava os neurónios com a historieta dos discos pedidos. Esta coincidência não é de espantar numa terra com tão poucos habitantes, mas deixou-me atrapalhado, inclusive antes da companheira do inventor me ter tocado com o pé descalço, debaixo da mesa, para que não fizesse mais perguntas sobre a rádio. Foda-se não sabia que o tema era tabu mas o pormenor do toque do pé descalço lembrou-me uma cena de uma pornochanchada reprimida em que Arielle Dombasle, neste caso sobre a mesa mas também com a consequência de ter excitado uma dos convivas, grava o relevo do seu mamilo desperto num pacotinho de manteiga. Na verdade, a associação é pouco rigorosa, porque feita antes de ter respondido à questão que de imediato surgiu: houve ali intenção ou casualidade? Tratou-se de uma daquelas situações em que o Lucílio Baptista que existe dentro de nós mais prontamente se manifesta. O jantar decorreu sem mais incidentes, mas depois o inventor ausentou-se com Tatiana e eu fiquei a sós com ela.Confesso que foi uma surpresa. Não resisti a esperar pela hora de saída de Tatiana e a primeira coisa que ela fez foi acender um cigarro. Tem um jeito fabril de fumar, a fazer lembrar o das empregadas da minha velha cantina. Tem também um jeito refinado de segurar o cigarro entre os dedos e é civilizada: deitou a beata num caixote do lixo, depois de se certificar que estava bem apagada (segui-a durante uns minutos, à distância).
Um homem de bom gosto só pode gostar de ver uma mulher fumar, mas um homem de bom gosto não pode suportar que uma mulher fume. É este o problema. Não se trata de uma preocupação com a saúde da mulher mas sim de um conflito entre gostar de ver e não gostar de sentir. Coisas demasiado subtis para as ondas hertzianas. Tal como Tatiana, a gaja, a minha interlocutora da pérfita noite, junto á muralha, fuma. Quem diria?

terça-feira, 2 de março de 2010

Crónica do Baco 20

Há dias que não vejo Tatiana e não toma forma a escultura nua que estou a fazer. O que temos, feitas as contas, é um nariz. Como explicar esta falta de empreendedorismo? Não excluindo que se trate de preguiça, creio que há duas pressões para adiar a materialização de Tatiana. A primeira: a chuva abundante que cai em Estremoz é um modo de evitar um compromisso. Se cai muita , não falta água logo não tenho compromissos. A segunda: é a única forma de não contaminar Tatiana com imagens do passado pouco neutras. De algum modo, esta segunda pressão acentuou-se em Estremoz. É verdade que uns meses de isolamento bastam para se regressar a um estado livre de qualquer paixão, mas a vivência na vila é também muito pobre nos estímulos quotidianos que teriam ajudado a reconstruir a matéria-prima de imagens necessária para compor Tatiana e um novo imaginário erótico. A ideia de que no interior do país se encontram belas moças de fartos seios à janela é uma falsidade alimentada pelos estereótipos das fantasias sexuais sulistas (a loira espojada sobre fardos de palha, receptiva e expectante) e esmagada por uma pirâmide etária que há muito se inverteu. É só magricelas, macilentas de cabelo gorduroso. Nem mesmo a minha gatinha Tânia que por aqui passou há uns meses me excita, e foi provavelmente uma alucinação. Perante este quadro, ainda há umas fugas do passado, que se insinuam quando menos esperava ou então quando seria inevitável. Estes episódios rareiam como rareiam os advogados e procuro recorrer a tais imagens segundo um sistema de rotatividade que impede qualquer primazia. Ainda assim, Tatiana não precisa de ficar com marcas no corpo destes vícios esporádicos. Frankenstein, por mais monstruoso que fosse, usou cadáveres anónimos para a sua composição. Daí a importância dos estímulos ocasionais, tão raros em Estremoz. Sobra o mercado local claro, mas isso seria construir Tatiana a partir de materiais pré-fabricados. Uma coisa deprimente, terceiromundista, com barracas, velhas desbocadas e ratazanas pestilentas. É preciso paciência. O nariz já está, o resto aparecerá um dia, com a simplicidade do escultor que apenas disse ter tirado do bloco de mármore tudo o que estava a mais.