Foi na qualidade de recruta que João Algoz se iniciou na pornografia. Porque o desejo antecedeu em dois meses a competência para a masturbação, a data precisa depende do critério que se considere relevante, mas na primeira e na segunda vez foi usada a mesma revista, o mesmo número e até o mesmo exemplar. Como sempre acontece nos colégios, um colega empreendedor dominava o mercado negro da distribuição do material pornográfico. Este rapaz cedo percebeu que o verdadeiro negócio estava no aluguer, mas optou por não plastificar o seu espólio, pois o papel autocolante transparente era caro e aplicá-lo sem deixar bolhas de ar uma tarefa difícil para quem tivera negativa na disciplina de trabalhos manuais. A sua solução foi penalizar quem não devolvesse a revista como a recebeu; de início a penalização foi pecuniária, mas a dado momento passou a ser uma interdição de novos alugueres durante um mês, fórmula que vingou. Foi assim que Algoz desde o início adquiriu hábitos de higiene pouco rigorosos, detestava primeiro o papel higiénico e só quando começou a sujar a roupa interior é que se iniciou nos gardanapos descartáveis (que roubava na bar da escola), que têm uma folha mais absorvente e o tamanho certo.
Nunca ninguém lhe conheceu qualquer namorada mas ele em pensamento namorou imensas, o que acentuou o consumo de pornografia. Livre das restrições do colégio, Algoz havia aderido com entusiasmo à filmografia centro-europeia, que consumia em vídeo, depois de uma experiência desagradável numa sala de cinema. Começou aí o namoro com as máquinas.
João Algoz nunca perdeu a virgindade e o vício da pornografia acentuou-se. Por comparação, o sexo verdadeiro parecia-lhe mais virtual, inclusive quando acabava de se masturbar. Na pornografia, Algoz experimentava sempre uma ressaca de culpa, que atribuía à recruta e à disciplina politica. Quando olhava para as mulheres essa sensação de ressaca aparecia sempre e dera lugar a uma satisfação muito próxima da felicidade, sobretudo ao sábado de manhã, se o céu estava limpo, o esquentador não falhava e os pais não estavam em casa. Era um prazer tão intenso e compensador de calças desapertadas no sofá da sala, diante do televisor, e as revistas espalhadas pelo chão com as gajas todas nuas.
Uma das suas namoradas (em pensamento) acabaria por sair de casa para ir viver com o namorado verdadeiro. Algoz não aceitou bem a separação e depois de umas aventuras inconsequentes acabou por voltar a acentuar o vício da pornografia. De início, recuperou as velhas rotinas e na aparência lembrava um adolescente. Mas se a pornografia começa por ser uma cábula da imaginação, tende a transformar-se num antídoto da memória. Assim foi. Algoz procurava expulsar as imagens eróticas que a sua ex-namorada lhe deixara e o mobilizavam insistentemente. Daí a escalada que começou na contemplação da rotina onanista de uma mulher asseada, ao fim de algumas semanas já envolvia uma loira oxigenada numa estrebaria e por fim envolvia a cadela da vizinha, aliás vistoso exemplar canino de pelo branco e luzidio.
A solidão de Algoz chegou devagar. No início, virou-se para as máquinas (computadores, fotografia, etc) e assim se passaram muitos anos, em que o natural acumular de tensão sexual foi sendo dissipado pela progressão da patetice, num equilíbrio dinâmico. Até ao dia em que Algoz deu com uma publicidade a um detergente de máquina, misturada com uma récita sindical.
A alteração do papel desempenhado pelo homem no lar levara a mudanças na publicidade. De exclusivo dos anúncios das cervejeiras e das marcas de carros, a publicidade com figuras femininas carregadas de sexualidade extravasou para outros mercados, como o dos detergentes de roupa e amaciadores, que antes tinham por público-alvo donas de casa, tias e avós. Mas Algoz era de outro mundo e o confronto com a modelo peituda espojada sobre uma pilha de toalhas turcas veio com um misto de surpresa e excitação, num contexto redentor, pois nem um mamilo se topava. Gozar o sorriso maternal da modelo na garrafa de amaciador passou a ser o momento alto das manhãs de Algoz. Depois também das tardes. E das noites. Algoz reencontrava um fulgor sexual e, pela primeira vez, não se sentia culpado, nem a montante, nem a jusante. Esta liberdade de consciência conduziu-o à obsessão, embora seja impossível estabelecer, com rigor médico, se Algoz efectivamente se masturbará até à morte á conta da gaja da garrafa de amaciador.
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