domingo, 14 de fevereiro de 2010

Crónica do Baco 16

Gosto muito do Luís. O homem lutou pela sua cidade, dentro e fora do país e deu um bom contributo nas vezes que teve que dar o corpo ao manifesto. É verdade que já não falo com ele há meses e conjecturo que já não se lembra da minha cara e a Hermínia leva o tempo a bajulá-lo e a dizer-me "o menino havia de o ouvir discursar... fala tão bem...". (estou a piratear o Grand Torino, do Clint Eastwood,depois do thriller falhado que é Mystic River, depois do díptico de efeito fácil sobre Ywo Jima, depois do pastelão competente que é Changeling, eis um filme sobre redenção que recupera a magia de Perfect World, com o qual estabelece o paralelo mais óbvio).
Já nem a oiço ... a culpa, creio, foi de quem andou a ouvir Vangelis tanto tempo. Vangelis está para a música como a série Rocky para o cinema, isto é, inspira-nos da forma mais primária que se pode imaginar. Quando Woody Allen disse que ouvir Wagner lhe dava vontade de invadir a Polónia, ainda não se ouvia muito Vangelis, caso contrário teria dito que ouvir Vangelis o fazia capaz de roubar a bola ao Zbigniew Boniek. Ora, um ego como o dele, com propensão estratosférica, pode sair da órbita terrestre ao som dos Xutos e Pontapés em vez do Vangelis. Foi isso que aconteceu no dia do Benfica-Everton, estava eu a ler "O Homem que não tira o Palito da Boca" na minha pastelaria da Luciano Cordeiro, com a Tânia ao colinho quando os vi entrar. Menos explicáveis foram as suas reacções. Parecia que seria impossível não serem moradores habituais. Dizia um : "Podia estar tranquilamente a ganhar dinheiro e a ter fins de semana e vai para aquilo... Fiquei surpreendido. Coloco-me no lugar dele, se alguém me convidasse eu não aceitava. É um acto de grande generosidade." Custa-me lembrar o que era antes, mas talvez por isso, seria escusado andar a contribuir com estas coisas para a credibilização do anedotário sobre a corporação que já dirigiu. Foda-se mas eu também não sou exemplo para ninguém mas não gosto do Elefante Branco. Deixei de trabalhar e estou numa rota existencial que tende para a autarcia de inspiração quase recolectora, mas esta ideia redutora de que vivemos a vida apenas em função do salário mais alto deveria ficar circunscrita à imprensa desportiva. A Tatiana quando larga o companheiro e se perde nos braços de um qualquer é que tem razão porque não vale a pena matar um grande amor por uma amizade pequenina. E vice-versa. Mas é duro aprender as duas lições no mesmo dia, mesmo que - e necessariamente - com pessoas diferentes.

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