O lisboeta imagina uma cidade como um ponto homogéneo no espaço. Aplicar a noção de subúrbio às pequenas povoações parece-lhe uma excentricidade. Mas há uma dimensão fractal em todos os aglomerados populacionais, que faz com que uma pequena aldeia seja, na planta das ruas, a miniatura de uma cidade. De outro modo: com a diminuição de tamanho, os elementos do espaço preservam-se bem melhor do que a composição dos habitantes; a mais modesta aldeia terá sempre um centro e uma periferia como o Rocio de Estremoz, mas até as vilas com ambições a ser cidade têm livrarias de banda desenhada. Tenho sentido falta duma em Estremoz. Herdei a minha casa num dos sitios mais bonitos de Estremoz. Gosto de ver o castelo daqui e espreitar o Rocio cheio de carros, daqui a uns meses, deixo o meu quarto do lado norte e mudo para o do lado onde vejo a fila de laranjeiras já floridas. O menino vai ver que aquele é mais quentinho diz-me a Hermínia sempre preocupada com o meu bem estar, mas eu estou desconfiado que quer é ter acesso á janela que dá para o Rocio. Foi dali que ouvi esta conversa:
-Já assinou a petição?
- Qual a de abrir o teatro?
- Não caralho, a de fechar as piscinas
- Eu conheço-te?
- Estou a fazer um abaixo assinado para amanharem a estrada da minha aldeia.
- Desaparece ou ainda te magoas.
- Não quer assinar a petição?
- A do Estremoz Marca?
- Bem, de certa forma.
- De certa forma o quê? Eu tenho a minha liberdade e tu a tua. Onde é que vives, pá?
- Aquilo da boneca em sangue termina onde começa o teu nariz?
- Não. Aquilo quer dizer que vem muito dinheiro.
- Ah isso é uma bugiganga luminosa de paquistanês?
- Não, palhaço. Chama-se projecto ....
- Mete-te na tua vida.
- E a petição?
- Desculpa?
- A petição.
- Meu, vai-te foder...
- Mas não quer assinar.
- Olha para aqui. A minha mão. Estás a ver?
- Não estou a perceber.
- Aqui, pá. Estás a ver, hã? Estás?
- Sim, as cinco quinas tatuadas. Já passei muito na prisão, não tenho medo dos gajos.
- Estes gajos ainda são piores que os outros.
- Chega. Assinas ou não?
- Nem penses. E nem quero saber quem são os bufos.
- Desaparece senão...
- Se não, o quê? Chamas o padrinho, é?
- Chamo.
- Meu, tu vais ficar caladinho. Ouviste?
- Isto não fica assim.
- Fica, pá. Fica assim. E bico calado. Tenho-te marcado. Vocês têm é muito tempo livre, caralhos os fodam.
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