Antes de me mudar para Estremoz, gostava de cultivar crisântemos, gardénias e tulipas em vasinhos de plástico, mas a Herminia avisou-me logo que isso era coisa de maricas, depois ainda tentei mais duas vezes mas Tatiana numa das aventuras pelo meu quarto perguntou-me com voz de Lou Reed se as rosinhas eram minhas e disse-lhe que não, não eram minhas porque isso é coisa de gajas. Plantar tulipas e bolbos e palmilhar as ruas armado em matrafona de Carnaval são dois géneros intrinsecamente errados. Quando mostrei as plantas ao meu único amigo intelectual, ele disse-me que eram "péssimas" e que a poda - na altura empregámos o termo "aforismo" - é um registo muito difícil, só ao alcance dos grandes agricultores principalmente se tiveram experiência de qualquer cargo político. Sobre o Carnaval a crítica foi dura, ainda que vaga. O meu problema com o carnaval é outro, talvez por não ser um intelectual. Para mim, mostrar as fraquezas transformado em baiana ou sopeira como a minha Hermínia é o cúmulo da exposição das miudezas. É mais cruel do que a autobiografia do Vincent Van Gogh e se alguns o fazem por vício, talvez não tenham a noção do ridículo.
Na quinta feira antes de voltarmos a S. Domingos de Rana senti a suspeita que pouca gente da minha rua gosta desta bizarria do carnaval, e até compreendiam porque deixava a terra nestes dias, mas ontem confirmei tudo em casa do inventor. O menino nem dos casamentos das noivas de santo andré gostava quanto mais disto...
Depois do jantar o meu anfitrião, professor aposentado, ausentou-se de repente, como costuma fazer, e fiquei a bisbilhotar a sua biblioteca. Descobri então um volume delgado: La Cuisine Cannibale, de Roland Topor. Trata-se de uma série de textos que começam por ser chocantes, depois desconcertantes, depois divertidos, a seguir previsíveis e por fim profundamente aborrecidos. Topor teve uma boa ideia: imaginar receitas de culinária em que os ingredientes são seres humanos. Foda-se sabia lá que o professor se interessa por estas merdas.
Bisbilhotei outro volume e escolhi o da capinha amarela. Depois de lida a introdução do tradutor Richard Freeborn, no momento em que inicio a leitura de "Fathers and Sons" o meu celular acusa uma ligeira tremura indicando que Tatiana me quer ouvir falar, desligo ao segundo impulso no momento em que ela me informa que está a chover em Estremoz. Que se foda!
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