sábado, 27 de fevereiro de 2010

Crónica do Baco 19

Foi na qualidade de recruta que João Algoz se iniciou na pornografia. Porque o desejo antecedeu em dois meses a competência para a masturbação, a data precisa depende do critério que se considere relevante, mas na primeira e na segunda vez foi usada a mesma revista, o mesmo número e até o mesmo exemplar. Como sempre acontece nos colégios, um colega empreendedor dominava o mercado negro da distribuição do material pornográfico. Este rapaz cedo percebeu que o verdadeiro negócio estava no aluguer, mas optou por não plastificar o seu espólio, pois o papel autocolante transparente era caro e aplicá-lo sem deixar bolhas de ar uma tarefa difícil para quem tivera negativa na disciplina de trabalhos manuais. A sua solução foi penalizar quem não devolvesse a revista como a recebeu; de início a penalização foi pecuniária, mas a dado momento passou a ser uma interdição de novos alugueres durante um mês, fórmula que vingou. Foi assim que Algoz desde o início adquiriu hábitos de higiene pouco rigorosos, detestava primeiro o papel higiénico e só quando começou a sujar a roupa interior é que se iniciou nos gardanapos descartáveis (que roubava na bar da escola), que têm uma folha mais absorvente e o tamanho certo.

Nunca ninguém lhe conheceu qualquer namorada mas ele em pensamento namorou imensas, o que acentuou o consumo de pornografia. Livre das restrições do colégio, Algoz havia aderido com entusiasmo à filmografia centro-europeia, que consumia em vídeo, depois de uma experiência desagradável numa sala de cinema. Começou aí o namoro com as máquinas.

João Algoz nunca perdeu a virgindade e o vício da pornografia acentuou-se. Por comparação, o sexo verdadeiro parecia-lhe mais virtual, inclusive quando acabava de se masturbar. Na pornografia, Algoz experimentava sempre uma ressaca de culpa, que atribuía à recruta e à disciplina politica. Quando olhava para as mulheres essa sensação de ressaca aparecia sempre e dera lugar a uma satisfação muito próxima da felicidade, sobretudo ao sábado de manhã, se o céu estava limpo, o esquentador não falhava e os pais não estavam em casa. Era um prazer tão intenso e compensador de calças desapertadas no sofá da sala, diante do televisor, e as revistas espalhadas pelo chão com as gajas todas nuas.

Uma das suas namoradas (em pensamento) acabaria por sair de casa para ir viver com o namorado verdadeiro. Algoz não aceitou bem a separação e depois de umas aventuras inconsequentes acabou por voltar a acentuar o vício da pornografia. De início, recuperou as velhas rotinas e na aparência lembrava um adolescente. Mas se a pornografia começa por ser uma cábula da imaginação, tende a transformar-se num antídoto da memória. Assim foi. Algoz procurava expulsar as imagens eróticas que a sua ex-namorada lhe deixara e o mobilizavam insistentemente. Daí a escalada que começou na contemplação da rotina onanista de uma mulher asseada, ao fim de algumas semanas já envolvia uma loira oxigenada numa estrebaria e por fim envolvia a cadela da vizinha, aliás vistoso exemplar canino de pelo branco e luzidio.

A solidão de Algoz chegou devagar. No início, virou-se para as máquinas (computadores, fotografia, etc) e assim se passaram muitos anos, em que o natural acumular de tensão sexual foi sendo dissipado pela progressão da patetice, num equilíbrio dinâmico. Até ao dia em que Algoz deu com uma publicidade a um detergente de máquina, misturada com uma récita sindical.

A alteração do papel desempenhado pelo homem no lar levara a mudanças na publicidade. De exclusivo dos anúncios das cervejeiras e das marcas de carros, a publicidade com figuras femininas carregadas de sexualidade extravasou para outros mercados, como o dos detergentes de roupa e amaciadores, que antes tinham por público-alvo donas de casa, tias e avós. Mas Algoz era de outro mundo e o confronto com a modelo peituda espojada sobre uma pilha de toalhas turcas veio com um misto de surpresa e excitação, num contexto redentor, pois nem um mamilo se topava. Gozar o sorriso maternal da modelo na garrafa de amaciador passou a ser o momento alto das manhãs de Algoz. Depois também das tardes. E das noites. Algoz reencontrava um fulgor sexual e, pela primeira vez, não se sentia culpado, nem a montante, nem a jusante. Esta liberdade de consciência conduziu-o à obsessão, embora seja impossível estabelecer, com rigor médico, se Algoz efectivamente se masturbará até à morte á conta da gaja da garrafa de amaciador.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Crónica do Baco 18

O lisboeta imagina uma cidade como um ponto homogéneo no espaço. Aplicar a noção de subúrbio às pequenas povoações parece-lhe uma excentricidade. Mas há uma dimensão fractal em todos os aglomerados populacionais, que faz com que uma pequena aldeia seja, na planta das ruas, a miniatura de uma cidade. De outro modo: com a diminuição de tamanho, os elementos do espaço preservam-se bem melhor do que a composição dos habitantes; a mais modesta aldeia terá sempre um centro e uma periferia como o Rocio de Estremoz, mas até as vilas com ambições a ser cidade têm livrarias de banda desenhada. Tenho sentido falta duma em Estremoz. Herdei a minha casa num dos sitios mais bonitos de Estremoz. Gosto de ver o castelo daqui e espreitar o Rocio cheio de carros, daqui a uns meses, deixo o meu quarto do lado norte e mudo para o do lado onde vejo a fila de laranjeiras já floridas. O menino vai ver que aquele é mais quentinho diz-me a Hermínia sempre preocupada com o meu bem estar, mas eu estou desconfiado que quer é ter acesso á janela que dá para o Rocio. Foi dali que ouvi esta conversa:
-Já assinou a petição?
- Qual a de abrir o teatro?
- Não caralho, a de fechar as piscinas
- Eu conheço-te?
- Estou a fazer um abaixo assinado para amanharem a estrada da minha aldeia.
- Desaparece ou ainda te magoas.
- Não quer assinar a petição?
- A do Estremoz Marca?
- Bem, de certa forma.
- De certa forma o quê? Eu tenho a minha liberdade e tu a tua. Onde é que vives, pá?
- Aquilo da boneca em sangue termina onde começa o teu nariz?
- Não. Aquilo quer dizer que vem muito dinheiro.
- Ah isso é uma bugiganga luminosa de paquistanês?
- Não, palhaço. Chama-se projecto ....
- Mete-te na tua vida.
- E a petição?
- Desculpa?
- A petição.
- Meu, vai-te foder...
- Mas não quer assinar.
- Olha para aqui. A minha mão. Estás a ver?
- Não estou a perceber.
- Aqui, pá. Estás a ver, hã? Estás?
- Sim, as cinco quinas tatuadas. Já passei muito na prisão, não tenho medo dos gajos.
- Estes gajos ainda são piores que os outros.
- Chega. Assinas ou não?
- Nem penses. E nem quero saber quem são os bufos.
- Desaparece senão...
- Se não, o quê? Chamas o padrinho, é?
- Chamo.
- Meu, tu vais ficar caladinho. Ouviste?
- Isto não fica assim.
- Fica, pá. Fica assim. E bico calado. Tenho-te marcado. Vocês têm é muito tempo livre, caralhos os fodam.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Crónica do Baco 17

Antes de me mudar para Estremoz, gostava de cultivar crisântemos, gardénias e tulipas em vasinhos de plástico, mas a Herminia avisou-me logo que isso era coisa de maricas, depois ainda tentei mais duas vezes mas Tatiana numa das aventuras pelo meu quarto perguntou-me com voz de Lou Reed se as rosinhas eram minhas e disse-lhe que não, não eram minhas porque isso é coisa de gajas. Plantar tulipas e bolbos e palmilhar as ruas armado em matrafona de Carnaval são dois géneros intrinsecamente errados. Quando mostrei as plantas ao meu único amigo intelectual, ele disse-me que eram "péssimas" e que a poda - na altura empregámos o termo "aforismo" - é um registo muito difícil, só ao alcance dos grandes agricultores principalmente se tiveram experiência de qualquer cargo político. Sobre o Carnaval a crítica foi dura, ainda que vaga. O meu problema com o carnaval é outro, talvez por não ser um intelectual. Para mim, mostrar as fraquezas transformado em baiana ou sopeira como a minha Hermínia é o cúmulo da exposição das miudezas. É mais cruel do que a autobiografia do Vincent Van Gogh e se alguns o fazem por vício, talvez não tenham a noção do ridículo.
Na quinta feira antes de voltarmos a S. Domingos de Rana senti a suspeita que pouca gente da minha rua gosta desta bizarria do carnaval, e até compreendiam porque deixava a terra nestes dias, mas ontem confirmei tudo em casa do inventor. O menino nem dos casamentos das noivas de santo andré gostava quanto mais disto...
Depois do jantar o meu anfitrião, professor aposentado, ausentou-se de repente, como costuma fazer, e fiquei a bisbilhotar a sua biblioteca. Descobri então um volume delgado: La Cuisine Cannibale, de Roland Topor. Trata-se de uma série de textos que começam por ser chocantes, depois desconcertantes, depois divertidos, a seguir previsíveis e por fim profundamente aborrecidos. Topor teve uma boa ideia: imaginar receitas de culinária em que os ingredientes são seres humanos. Foda-se sabia lá que o professor se interessa por estas merdas.
Bisbilhotei outro volume e escolhi o da capinha amarela. Depois de lida a introdução do tradutor Richard Freeborn, no momento em que inicio a leitura de "Fathers and Sons" o meu celular acusa uma ligeira tremura indicando que Tatiana me quer ouvir falar, desligo ao segundo impulso no momento em que ela me informa que está a chover em Estremoz. Que se foda!

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Crónica do Baco 16

Gosto muito do Luís. O homem lutou pela sua cidade, dentro e fora do país e deu um bom contributo nas vezes que teve que dar o corpo ao manifesto. É verdade que já não falo com ele há meses e conjecturo que já não se lembra da minha cara e a Hermínia leva o tempo a bajulá-lo e a dizer-me "o menino havia de o ouvir discursar... fala tão bem...". (estou a piratear o Grand Torino, do Clint Eastwood,depois do thriller falhado que é Mystic River, depois do díptico de efeito fácil sobre Ywo Jima, depois do pastelão competente que é Changeling, eis um filme sobre redenção que recupera a magia de Perfect World, com o qual estabelece o paralelo mais óbvio).
Já nem a oiço ... a culpa, creio, foi de quem andou a ouvir Vangelis tanto tempo. Vangelis está para a música como a série Rocky para o cinema, isto é, inspira-nos da forma mais primária que se pode imaginar. Quando Woody Allen disse que ouvir Wagner lhe dava vontade de invadir a Polónia, ainda não se ouvia muito Vangelis, caso contrário teria dito que ouvir Vangelis o fazia capaz de roubar a bola ao Zbigniew Boniek. Ora, um ego como o dele, com propensão estratosférica, pode sair da órbita terrestre ao som dos Xutos e Pontapés em vez do Vangelis. Foi isso que aconteceu no dia do Benfica-Everton, estava eu a ler "O Homem que não tira o Palito da Boca" na minha pastelaria da Luciano Cordeiro, com a Tânia ao colinho quando os vi entrar. Menos explicáveis foram as suas reacções. Parecia que seria impossível não serem moradores habituais. Dizia um : "Podia estar tranquilamente a ganhar dinheiro e a ter fins de semana e vai para aquilo... Fiquei surpreendido. Coloco-me no lugar dele, se alguém me convidasse eu não aceitava. É um acto de grande generosidade." Custa-me lembrar o que era antes, mas talvez por isso, seria escusado andar a contribuir com estas coisas para a credibilização do anedotário sobre a corporação que já dirigiu. Foda-se mas eu também não sou exemplo para ninguém mas não gosto do Elefante Branco. Deixei de trabalhar e estou numa rota existencial que tende para a autarcia de inspiração quase recolectora, mas esta ideia redutora de que vivemos a vida apenas em função do salário mais alto deveria ficar circunscrita à imprensa desportiva. A Tatiana quando larga o companheiro e se perde nos braços de um qualquer é que tem razão porque não vale a pena matar um grande amor por uma amizade pequenina. E vice-versa. Mas é duro aprender as duas lições no mesmo dia, mesmo que - e necessariamente - com pessoas diferentes.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Crónica do Baco 15

O Alentejo tem a maior taxa de suicídios do mundo. Parece que há uma certa apetência pelo enforcamento, talvez porque os ramos do sobreiro cresçam quase na horizontal, o que é um convite a lançar uma corda, e porque por aqui se encontrem muitos bancos de cozinha, que facilmente podem ser levados para o campo e tombados pelo próprio, já com a corda ao pescoço. Foda-se um gajo não nasceu para perecer na ponta duma corda. Deve ser por isso que gosto da Laetitia Casta, a modelo francesa detentora da melhor associação nome-métier desde que Futre pendurou as botas, porque ela me entesa à bruta quando aparece absolutamente flawless no anúncio da L'Oreal. Olho para Herminia quando se ajoelha a lavar os meus ladrilhos mas murcho mais rapidamente que um pescoço de frango quando lhe avisto a varizes rôxas. Tatiana deixou de aparecer depois de se ter rapado toda e só me lembro do nela quando vejo a minha gillete. Para quem viveu em França nos anos noventa, havia uma colecção de sex symbols para todos os gostos: Virginie Ledoyen, talhada para a infidelidade e a perversão; Isabelle Hupert, à medida de uma fantasia sofisticada; Julie Gayet (para ser franco, só reparei nela mais tarde),que inspira a vontade de lhe fazer um filho; Élodie Bouchez, à imagem de uma amiga com quem tive um piqueno deslize; Sandrine Kiberlain, que nos usa na cama com o desprezo e a angústia de quem, por o parceiro saber pouca filosofia, sente a coisa como um acto de bestialismo. Sobre todas elas paira Laetitia. Mais inocente, menos sofisticada, nada maternal, sem que despertasse confiança e muito pouco intelectual, o que Laetitia tinha, além da beleza, era uma naturalidade absolutamente desarmante. É esta naturalidade que a condenou já e a condenará para sempre a ser má actriz, mas é por isso que será sempre irresistível. Ela e todas as gajas boas que se despem nas revistas. Tem uma naturalidade e uma confiança no seu corpo superior à de qualquer estrela porno e, ainda assim, imaculada. Dez anos depois, a mulher que "gosta muito de fazer amor" continua igual. Não há cosmética para isto, nem para a vontade que tenho em me masturbar quando a contemplo tão boa e tão longe.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Crónica do Baco 14

A rotina dos jornais tem um lado divertido. Tal como os místicos andam a sondar o futuro nos sítios errados - as entranhas de animais, os búzios, os horóscopos - , também procuro reparar em que notícia Tânia (a minha gatinha) se alivia. Esta tarde cagou sobre a cara de Vasco Pulido Valente e fiquei com sentimentos contraditórios. A ideia de alguém cagar sobre um colunista era-me impensável até hoje. Vitupérios? Sim. Um esgar de desprezo? Certamente. Mas cagar? Não. Nem sequer limpar-me a uma coluna de Luís Delgado, sendo que há uma diferença vectorial entre cagar sobre o jornal e pegar no jornal para limpar o rabo. O episódio teve pois o louvor de me deixar a pensar sobre questões novas e isso é enriquecedor. Mas veio depois alguma frustração. Ter sido logo o Vasco Pulido Valente, quando havia um Baptista Bastos a três palmos e me é cada vez mais difícil gostar de Baptista Bastos? Isto já para não falar de Vasco Graça Moura, o único cronista que a partir de agora me leva a querer ver Tânia de diarreia e que estava fortuitamente protegido por pequeno recipiente de plástico que já despertou mais o interesse da gata. As medidas a tomar são simples. Primeira: evitar que a última página de O Público se sujeite a estas vergonhas, mesmo que para isso tenha de deixar a penúltima página virada para cima e expor o Miguel Esteves Cardoso. Um capricho antes da segunda medida: acumular editoriais de O Público e atapetar um dia a cozinha só com os de José Manuel Fernandes (Tânia defeca em média 4 vezes a cada 24 horas). Segunda: começar também a usar o Expresso, por um critério de pluralidade, que do jornal também faz parte um vasto leque de cronistas. Não compro aquele semanário há anos mas, se ainda tiver aquele formato spreadsheet, vai-me simplificar a vida. A Hermínia que te tanta merda limpar se estafa, é que não acha graça nenhuma ao ritual, acha um desperdício estuporar os jornais e diz-me: O menino devia gastar os jornais cá da terra.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Esta semana a minha gata começou a parir. Ao quarto gatinho, não foi difícil perceber que Tânia (batizmo á nascença) era a gatinha mais esperta da ninhada de sete. Mas regressei a casa com a dúvida de saber quão esperta Tânia seria. A dúvida entretanto desfez-se. Apetece-me concluir que a Tânia aprendeu sozinha a fazer as necessidades sobre os jornais dos amigos. Tinha lido por aí que é difícil ensinar os gatinhos e que só com técnicas de positive reinforcement e fear conditioning se lá chega, mas não foi preciso passar por esse clockwork orange doméstico. Há dois dias, em vez de cobrir de jornais os 50 ladrilhos da cozinha, cobri apenas 12. Ontem, Tânia tinha deixado 7 cagalhotos sobre os jornais e 1 de fora sobre os irmãozitos. Qual a probabilidade se este resultado ter sido fruto do acaso e não da capacidade de Tânia discriminar entre onde se pode e onde não se pode cagar? Para mim foi muito frutuoso saber que no meio de seis machos a única fêmea é precisamente a que melhor se safa. Logo à nascença não hesita em cagar em cima dos irmãos. É genético!